Manuel era
mascate conhecido no interior de Minas Gerais. Não tinha muito dinheiro, mas
era ousado e garboso. No Brasil desde os 15 anos, explorava territórios e
negociava suas mercadorias, conquistando mulheres, espalhando suas sementes pelo
Brasil.
Um dia, lá pelas
bandas de Esmeraldas, ouviu falar da joia da cidade: Madalena era negra e linda.
Tinha apenas 14 anos, mas o corpo já esbanjava sinuosidades que enlouqueceram o
português. Ela era desejada por todos, por isso o explorador a quis só para si.
O pai dela também quis, afinal que progresso era, para esta família pobre,
juntar a filha a um mercador, um europeu de pele branca!
Ela não se opôs,
aquela era uma decisão de homens. De homens que tinham poder para isso, não de
um menino da sua idade, como Benjamim, por quem seu coração batia enquanto se
olhavam no caminho da escola. Essa emoção de criança ficaria no passado, quando
ela se lembrasse do ano em que estudou.
Fizeram
casamento sem festa ou cerimônia, não precisava. Manuel arranjou uma casinha para
viver com ela. Deliciou-se por alguns meses com a sua aquisição, fez um filho
nela e partiu em negociações, antes de a criança nascer.
Na volta, dez
meses depois, sentiu um pouco de alegria ao conhecer seu primeiro menino. A mulher
ia sobrevivendo do trabalho na roça, com o filho na cestinha, sempre ao alcance
dos olhos. Manuel trouxera mantimentos, sabonete cheiroso e um vestido para
deixar sua fêmea ainda mais atraente. E fez nela outro filho, que já andava
quando o pai veio conhecer, sem muita emoção. Desta vez ficou só um mês e
voltou para a estrada, deixando a mulher prenha novamente.
Com 18 anos,
Madalena precisava produzir tanta energia para dar conta do trabalho, da casa, das
três crianças, que mal sobrava força para alguma alegria. O marido, esse homem
que passava por ali vez ou outra apenas para encher aquela barriga de cria, já
lhe causava asco. Ele, percebendo a falta de interesse dela, assanhava-se ainda
mais na valentia de tomar o bicho brabo na marra. Cedendo à brutalidade, ela
ainda o serviu na vez seguinte e teve o quarto filho, agora uma menina.
Dessa vez,
quando ele partiu, ela ficou muito debilitada. Nessa época ainda não se sabia
que, no futuro, tristeza profunda teria nome de doença. Foi largando o
trabalho, a casa, as crianças, ficava jogada na cama, só chorando. A mãe,
levava os netos menores para casa, alimentava os outros, fazia o que conseguia
para ajudar Madalena, mas tudo escondido do marido; para ele, a filha era mulher
casada, tinha que dar conta de cumprir seu papel. Não queria que nada ofendesse
a honra do genro.
Um dia,
desiludida de tudo, Madalena se jogou no rio, queria morrer, mas foi resgatada
por Veridiana, uma lavadeira que batia roupa nas pedras da margem. Ela era irmã
de Benjamin, que foi acionado para carregar a jovem desacordada para casa. Foi
então que os irmãos ficaram sabendo como ela estava vivendo e decidiram
ajudá-la em segredo. Em segredo, também, os olhos de Benjamin voltaram a se apaixonar
pelos de Madalena. Em segredo, ela viu nesse amor antigo uma chance de sentir
alegria. Em segredo eles se amaram e fizeram juras de acharem uma saída para
aquela situação. Em segredo, descobriram que o segredo já era mais conhecido e
falado do que eles podiam imaginar.
Como das outras
vezes, num dia qualquer Manuel voltou para conferir sua propriedade. Só que
logo ficou sabendo do falatório que o ridicularizava. Aquilo era uma afronta,
chegou na tapera de chicote nas mãos e encontrou outro homem, bem mais forte
que ele, com uma pistola em punho. Ela veio até a porta e disse apenas uma
frase para aquele que se achava seu dono: “Nesta carne você não entra mais”.
O português, até
então enfurecido, acovardou-se. Falou desaforos, enquanto se afastava. “Não vai
ficar assim!”
Algumas semanas
depois, o casal foi chamado diante do juiz, para atender a queixa do marido
traído. Ela achou que seria presa, chegou chorando, mas o homem da lei reconheceu
que Manuel a abandonara por várias vezes em situações de precariedade, não
tinha sido um bom marido, que a separação era cabida, mas o homem tinha direito
de levar metade das posses. Ele não quis nada da casa, aquela tapera horrível,
mas aceitou de bom gosto os dois filhos mais velhos, que eram metade da cria
que tinham produzido. Madalena perdeu o ar, quase desmaiou de angústia, não se
achava no direito de reclamar diante de gente tão mais poderosa que ela. Assim, viu dois de seus meninos, um com 4 e
outro com 3 anos, partirem em lágrimas com aquele quase estranho.
...
Gabriel era o
filho mais velho. Tobias, o irmão um ano mais novo. Por anos, passaram de
fazenda em fazenda, como criados, sendo cuidados por pessoas diferentes, ora
comendo bem, ora disputando restos. O pai, essa pessoa que passava vez ou outra
e os arrastava para um novo destino, não mostrava nenhum carinho, apenas gozo
por ter tomado daquela vagabunda parte das suas posses. “A mãe de vocês é uma
vadia, por isso vocês estão comigo”.
Na adolescência
os irmãos se separaram, achando caminhos de sobrevivência. Aos dezesseis, o
mais velho decide ir fazer sua vida na cidade grande. Vai trabalhar em Belo
Horizonte, numa lanchonete. Encara o estudo que nunca teve, faz o supletivo, o
curso técnico e vai para São Paulo ser torneiro mecânico numa metalúrgica.
Depois enfrenta a faculdade e vira engenheiro na empresa americana de canetas.
O mais novo também
superaria a pobreza, mas não as tantas dúvidas que trazia na alma. Assim que
pode, passou a se empenhar na difícil tarefa de achar a mãe, sem que o pai
soubesse, pois não queria encarar a fúria desse homem violento, única
referência da sua própria história. Um dia, depois de anos procurando, Tobias
telefonou para o irmão: “Achei, achei! Vou até lá semana que vem. Você quer
ir?” Gabriel, engoliu seco e disse que não, não queria conhecer a mulher que os
deu para o pai, não queria conhecer a “vagabunda”, não era assim que o pai a
chamava?
Tobias não
insistiu, sabia que o ressentimento tinha corroído outras emoções do irmão. E
agora, que era um homem importante, Gabriel não ia querer seu nome arranhado
por uma história de imoralidades. Foi sozinho. Uma semana depois, Tobias veio
de Minas visitar o irmão. “Você precisa ouvir a versão dela. Ela é a nossa
mãe...”
Quando
finalmente a curiosidade venceu a raiva e o encontro aconteceu, o coração do
filho mais velho nem precisou ouvir palavras de quem o pariu para reconhecer suas
verdades. Mãe e filho se olharam por longos cinco segundos e um abraço
silencioso dissolveu 40 anos de distância. Ela ainda era linda e parecia ser a
irmã mais velha daqueles seus outros 7 irmãos. Depois, com a alma afagada, Gabriel
tomou ciência dos acontecimentos, lembrou dos dois que ficaram quando ele e o
irmão partiram, conheceu os outros 5 que a mãe teve com Benjamin, esse homem
gentil que o recebia com generosidade. A família, de repente, era grande e
amorosa.
Quando soube do
encontro, Manuel quis rosnar, mas percebeu que os filhos não eram mais crianças.
Esses homens, que poderiam reclamar das mentiras de décadas contadas pelo pai,
apenas disseram que não havia mais espaço para aquilo. Cuidariam do pai, envelhecido,
se assim ele aceitasse, desde que nunca mais ofendesse a mãe deles.
Cinco anos
depois, no Natal, Tobias quis reunir todos na casa da praia, trazer os
sobrinhos de Minas para conhecerem o mar. Gabriel, ao telefone, disse que não
tinha como deixar o pai sozinho em São Paulo. Ia ficar com ele. O velho,
ouvindo a conversa, disse, assim que o filho desligou: “Sua mãe vai? Eu quero
ir também”.
- Pai, vê lá!
Você já prejudicou muito a vida dela. O que você quer agora?
Queria vê-la
mais uma única vez. Aquilo tudo era passado, agora eram todos adultos, precisavam
parar com aquela bobagem. Gabriel consultou o irmão e concordaram em arriscar.
Antes de chegar
a Ubatuba, Manuel pediu para o filho parar num supermercado, precisava usar o
banheiro, alegava, só que voltou para o carro de cabelo penteado, camisa
abotoada e com um vaso de flores na mão. Gabriel deu um suspiro indignado, mas
não disse uma palavra. O velho sedutor esqueceu que a mãe tinha outro homem?
Ao chegar, depois
de passar pelo abraço do filho mais novo, Manuel é colocado frente a frente com
Madalena. Ao lado dela, o homem que um dia apontou uma arma para ele. Atrás, um
grupo de pessoas de idades variadas, todas de alguma forma ligadas às vidas
geradas por aquela mulher. Ela, que um dia foi sua propriedade, porque ele
ainda não sabia que não somos donos nem mesmo do nosso próprio corpo. Ela, sobre
quem descarregou sentimentos tão distintos: primeiro a excitação e o desejo de
posse; depois o rancor, o ódio; agora, a saudade e o arrependimento. Ela, ali,
cheia de vidas; ele não possuía mais nada.
Ajoelhou-se diante dela e disse a única
palavra que conseguiu: “perdão”. A cena, ridícula, à primeira vista, foi tão
silenciosa e contida, que gerou comoção. Era verdadeira. Depois entregou a flor
para Benjamin, num aceno de paz, uma forma de agradecer com vida pelo gesto de
quem evitou a morte que ele quase provocou.
Era Natal. Haveria
tempo ainda, depois disso, para algum perdão e um pouco de paz.