terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Orelha e o Cão Tinhoso, um encontro infeliz

 

Orelha e o Cão Tinhoso, um encontro infeliz

Sueli de Britto Salles

          Janeiro de 2026. O mês termina transbordando comoção social por causa da morte (por eutanásia) de um cão comunitário brutalmente espancado numa praia de Florianópolis, por um grupo de adolescentes. Seu nome: Orelha.

          Será que a vida imitou a arte?

          Se você conhece um pouco de literatura africana, talvez já tenha ouvido falar de um famoso conto do moçambicano Luís Bernando Honwana, publicado originalmente em 1964, no livro homônimo “Nós matamos o Cão Tinhoso” (2017) e referenciado no conto “Nós choramos pelo Cão Tinhoso”, do angolano Ondjaki, no livro “Os da minha rua” (2007).

          Na arte e na vida, os cães ganharam notoriedade por terem sido vítimas do impulso agressivo de meninos que agem em grupo, explodindo adrenalina numa violência que os faz se sentirem mais fortes, corajosos e aceitos em determinada coletividade. Então é isso, coisa de moleque, como chutar bola, certo? Errado.

          Nos dois textos, a sensibilidade é vista como fraqueza e compromete a aceitação dos meninos pelo grupo. Para os meninos do primeiro conto, que foram manipulados por um adulto, matar o cão era um jogo, um ato de coragem. Acompanhamos a história pelos olhos do personagem Ginho, que era rejeitado (assim como o cão) e buscava ser incluído. Ele, mesmo sofrendo com o destino do cão, não teve forças para impedir o ato. No outro conto, de Ondjaki, um garoto, emocionado diante da sala de aula, precisa ler o desfecho da história do Tinhoso, mas não pode chorar, para não mostrar fraqueza.

          A história do Cão Tinhoso é cruel, sim. Mas é arte. Tem recebido diversas interpretações sobre a simbologia do animal doente de olhos azuis (referência aos europeus?), que persistia vivo pelas ruas como o diferente, o de fora, numa época em que Moçambique lutava para se libertar dos efeitos da colonização portuguesa, que só terminou mesmo em 1975. O povo, oprimido por tanto tempo, precisava de coragem para retomar sua terra, sua dignidade, seu próprio modo de olhar para a realidade e eliminar os rastros do explorador.

          Em Florianópolis, a situação é bem diferente. A capital de Santa Catarina oferece um dos mais altos padrões de vida do Brasil. Pelo que se sabe, os quatro adolescentes estão muito distantes da realidade africana dos contos. São estudantes de colégio particular e, dois deles, depois do ato, foram enviados para os Estados Unidos. Orelha era um cão preto, de 10 anos, dócil, conhecido e amado pela comunidade que frequentava a Praia Brava. Mas ele não tinha olho azul. Aqui, ao contrário do conto, talvez isso o salvasse.

          Não sabemos, ainda, a versão dos agressores, que estão protegidos pela lei. Mas esse caso estremece nossa fé nas pessoas e nos faz pensar nas inúmeras violências (explícitas e veladas) cometidas por seres humanos desde sempre. É inegável que haja um prazer sádico em quem pratica (ou apenas “aprecia”) ações violentas contra outro ser vivo. As históricas “atrações” no Coliseu de Roma ou o sucesso de público dos Autos de Fé, os “heróis” das touradas e as “inocentes” brigas de galo são apenas alguns exemplos das ações monstruosas que “gente civilizada” é capaz de cometer.

          Na arte, a violência pode ser funcional, pode humanizar. A catarse na tragédia grega, conforme explicado por Aristóteles no livro “Poética”, é a purificação das almas através do terror e da compaixão, acalmando os impulsos animalescos do público. Talvez, o que falte a meninos como os de Florianópolis seja mais educação, leitura, emoção. Amor, com certeza. Quem sabe se tivessem se comovido com o Cão Tinhoso...

          Que a arte nos salve!

 

 

ARISTÓTELES. Poética. Tradução, introdução e notas de Eudoro de Souza. 3. ed. São Paulo: Ars Poética, 1993.

HONWANA, Luís Bernardo. Nós Matamos o Cão-Tinhoso! São Paulo: Editora Kapulana, 2017.

ONDJAKI. Os da minha rua: estórias. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007.

 

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

As posses do conquistador

  

      Manuel era mascate conhecido no interior de Minas Gerais. Não tinha muito dinheiro, mas era ousado e garboso. No Brasil desde os 15 anos, explorava territórios e negociava suas mercadorias, conquistando mulheres, espalhando suas sementes pelo Brasil. 

    Um dia, lá pelas bandas de Esmeraldas, ouviu falar da joia da cidade: Madalena era negra e linda. Tinha apenas 14 anos, mas o corpo já esbanjava sinuosidades que enlouqueceram o português. Ela era desejada por todos, por isso o explorador a quis só para si. O pai dela também quis, afinal que progresso era, para esta família pobre, juntar a filha a um mercador, um europeu de pele branca!

    Ela não se opôs, aquela era uma decisão de homens. De homens que tinham poder para isso, não de um menino da sua idade, como Benjamim, por quem seu coração batia enquanto se olhavam no caminho da escola. Essa emoção de criança ficaria no passado, quando ela se lembrasse do ano em que estudou.

    Fizeram casamento sem festa ou cerimônia, não precisava. Manuel arranjou uma casinha para viver com ela. Deliciou-se por alguns meses com a sua aquisição, fez um filho nela e partiu em negociações, antes de a criança nascer.

    Na volta, dez meses depois, sentiu um pouco de alegria ao conhecer seu primeiro menino. A mulher ia sobrevivendo do trabalho na roça, com o filho na cestinha, sempre ao alcance dos olhos. Manuel trouxera mantimentos, sabonete cheiroso e um vestido para deixar sua fêmea ainda mais atraente. E fez nela outro filho, que já andava quando o pai veio conhecer, sem muita emoção. Desta vez ficou só um mês e voltou para a estrada, deixando a mulher prenha novamente.

    Com 18 anos, Madalena precisava produzir tanta energia para dar conta do trabalho, da casa, das três crianças, que mal sobrava força para alguma alegria. O marido, esse homem que passava por ali vez ou outra apenas para encher aquela barriga de cria, já lhe causava asco. Ele, percebendo a falta de interesse dela, assanhava-se ainda mais na valentia de tomar o bicho brabo na marra. Cedendo à brutalidade, ela ainda o serviu na vez seguinte e teve o quarto filho, agora uma menina.

    Dessa vez, quando ele partiu, ela ficou muito debilitada. Nessa época ainda não se sabia que, no futuro, tristeza profunda teria nome de doença. Foi largando o trabalho, a casa, as crianças, ficava jogada na cama, só chorando. A mãe, levava os netos menores para casa, alimentava os outros, fazia o que conseguia para ajudar Madalena, mas tudo escondido do marido; para ele, a filha era mulher casada, tinha que dar conta de cumprir seu papel. Não queria que nada ofendesse a honra do genro.

    Um dia, desiludida de tudo, Madalena se jogou no rio, queria morrer, mas foi resgatada por Veridiana, uma lavadeira que batia roupa nas pedras da margem. Ela era irmã de Benjamin, que foi acionado para carregar a jovem desacordada para casa. Foi então que os irmãos ficaram sabendo como ela estava vivendo e decidiram ajudá-la em segredo. Em segredo, também, os olhos de Benjamin voltaram a se apaixonar pelos de Madalena. Em segredo, ela viu nesse amor antigo uma chance de sentir alegria. Em segredo eles se amaram e fizeram juras de acharem uma saída para aquela situação. Em segredo, descobriram que o segredo já era mais conhecido e falado do que eles podiam imaginar.

    Como das outras vezes, num dia qualquer Manuel voltou para conferir sua propriedade. Só que logo ficou sabendo do falatório que o ridicularizava. Aquilo era uma afronta, chegou na tapera de chicote nas mãos e encontrou outro homem, bem mais forte que ele, com uma pistola em punho. Ela veio até a porta e disse apenas uma frase para aquele que se achava seu dono: “Nesta carne você não entra mais”.

    O português, até então enfurecido, acovardou-se. Falou desaforos, enquanto se afastava. “Não vai ficar assim!”

    Algumas semanas depois, o casal foi chamado diante do juiz, para atender a queixa do marido traído. Ela achou que seria presa, chegou chorando, mas o homem da lei reconheceu que Manuel a abandonara por várias vezes em situações de precariedade, não tinha sido um bom marido, que a separação era cabida, mas o homem tinha direito de levar metade das posses. Ele não quis nada da casa, aquela tapera horrível, mas aceitou de bom gosto os dois filhos mais velhos, que eram metade da cria que tinham produzido. Madalena perdeu o ar, quase desmaiou de angústia, não se achava no direito de reclamar diante de gente tão mais poderosa que ela.  Assim, viu dois de seus meninos, um com 4 e outro com 3 anos, partirem em lágrimas com aquele quase estranho.

...

    Gabriel era o filho mais velho. Tobias, o irmão um ano mais novo. Por anos, passaram de fazenda em fazenda, como criados, sendo cuidados por pessoas diferentes, ora comendo bem, ora disputando restos. O pai, essa pessoa que passava vez ou outra e os arrastava para um novo destino, não mostrava nenhum carinho, apenas gozo por ter tomado daquela vagabunda parte das suas posses. “A mãe de vocês é uma vadia, por isso vocês estão comigo”.

    Na adolescência os irmãos se separaram, achando caminhos de sobrevivência. Aos dezesseis, o mais velho decide ir fazer sua vida na cidade grande. Vai trabalhar em Belo Horizonte, numa lanchonete. Encara o estudo que nunca teve, faz o supletivo, o curso técnico e vai para São Paulo ser torneiro mecânico numa metalúrgica. Depois enfrenta a faculdade e vira engenheiro na empresa americana de canetas.

    O mais novo também superaria a pobreza, mas não as tantas dúvidas que trazia na alma. Assim que pode, passou a se empenhar na difícil tarefa de achar a mãe, sem que o pai soubesse, pois não queria encarar a fúria desse homem violento, única referência da sua própria história. Um dia, depois de anos procurando, Tobias telefonou para o irmão: “Achei, achei! Vou até lá semana que vem. Você quer ir?” Gabriel, engoliu seco e disse que não, não queria conhecer a mulher que os deu para o pai, não queria conhecer a “vagabunda”, não era assim que o pai a chamava?

    Tobias não insistiu, sabia que o ressentimento tinha corroído outras emoções do irmão. E agora, que era um homem importante, Gabriel não ia querer seu nome arranhado por uma história de imoralidades. Foi sozinho. Uma semana depois, Tobias veio de Minas visitar o irmão. “Você precisa ouvir a versão dela. Ela é a nossa mãe...”

    Quando finalmente a curiosidade venceu a raiva e o encontro aconteceu, o coração do filho mais velho nem precisou ouvir palavras de quem o pariu para reconhecer suas verdades. Mãe e filho se olharam por longos cinco segundos e um abraço silencioso dissolveu 40 anos de distância. Ela ainda era linda e parecia ser a irmã mais velha daqueles seus outros 7 irmãos. Depois, com a alma afagada, Gabriel tomou ciência dos acontecimentos, lembrou dos dois que ficaram quando ele e o irmão partiram, conheceu os outros 5 que a mãe teve com Benjamin, esse homem gentil que o recebia com generosidade. A família, de repente, era grande e amorosa.

    Quando soube do encontro, Manuel quis rosnar, mas percebeu que os filhos não eram mais crianças. Esses homens, que poderiam reclamar das mentiras de décadas contadas pelo pai, apenas disseram que não havia mais espaço para aquilo. Cuidariam do pai, envelhecido, se assim ele aceitasse, desde que nunca mais ofendesse a mãe deles.

    Cinco anos depois, no Natal, Tobias quis reunir todos na casa da praia, trazer os sobrinhos de Minas para conhecerem o mar. Gabriel, ao telefone, disse que não tinha como deixar o pai sozinho em São Paulo. Ia ficar com ele. O velho, ouvindo a conversa, disse, assim que o filho desligou: “Sua mãe vai? Eu quero ir também”.

    - Pai, vê lá! Você já prejudicou muito a vida dela. O que você quer agora?

    Queria vê-la mais uma única vez. Aquilo tudo era passado, agora eram todos adultos, precisavam parar com aquela bobagem. Gabriel consultou o irmão e concordaram em arriscar.

    Antes de chegar a Ubatuba, Manuel pediu para o filho parar num supermercado, precisava usar o banheiro, alegava, só que voltou para o carro de cabelo penteado, camisa abotoada e com um vaso de flores na mão. Gabriel deu um suspiro indignado, mas não disse uma palavra. O velho sedutor esqueceu que a mãe tinha outro homem?

    Ao chegar, depois de passar pelo abraço do filho mais novo, Manuel é colocado frente a frente com Madalena. Ao lado dela, o homem que um dia apontou uma arma para ele. Atrás, um grupo de pessoas de idades variadas, todas de alguma forma ligadas às vidas geradas por aquela mulher. Ela, que um dia foi sua propriedade, porque ele ainda não sabia que não somos donos nem mesmo do nosso próprio corpo. Ela, sobre quem descarregou sentimentos tão distintos: primeiro a excitação e o desejo de posse; depois o rancor, o ódio; agora, a saudade e o arrependimento. Ela, ali, cheia de vidas; ele não possuía mais nada.

     Ajoelhou-se diante dela e disse a única palavra que conseguiu: “perdão”. A cena, ridícula, à primeira vista, foi tão silenciosa e contida, que gerou comoção. Era verdadeira. Depois entregou a flor para Benjamin, num aceno de paz, uma forma de agradecer com vida pelo gesto de quem evitou a morte que ele quase provocou.

    Era Natal. Haveria tempo ainda, depois disso, para algum perdão e um pouco de paz.

 


 

 

 

 

 

 

 

 

sexta-feira, 17 de junho de 2022

PONTES E ESTRADAS


 

Depois de quase dois anos fora do país, tinha voltado para resolver o divórcio. Juntos, viveram tão separados... Onde haviam errado?

Sozinha com a secretária, na recepção, aguardava a advogada chamar.

- Minha irmã também se chama Rebeca, dizia a jovem, conferindo a documentação.

- É mesmo? Foi escolha da minha mãe, significa “a que une”, sabia?

A que une estava agora se separando. A mãe, se fosse viva, não entenderia. Foi a primeira a ensinar a arte silenciosa da resistência, acolhendo a necessidade de cada um, unindo todos, erguendo pontes para que outros sigam. 

A moça sorriu com simpatia:

- Vocês têm filhos?

- Só um.

Queria que perguntasse do filho, mas a outra apenas comentou:

- Um já dá tanto trabalho, não é?

Ela respirou fundo e sorriu. Era complicado... Aos vinte e cinco anos, a alegria de ser mãe. Aos vinte seis, a primeira cirurgia do filho e o abandono do trabalho. Aos vinte e nove, a coragem de sair do país, apenas com o menino, para um longo tratamento no exterior. O marido, no Brasil, trabalhava duro para bancar esse período. Na volta, as coisas já estavam diferentes, amor tinha virado respeito e contrato: ele provinha, ela cuidava. Ao seu lado, depois de mais uma cirurgia, a cria aos poucos se recuperou e virou um rapaz às vezes manso, às vezes temperamental, como um gato.

- Sim. E quando crescem a coisa fica pior!

 Por trás do clichê havia outra fase difícil. O jovem Tobias um dia acordou leão: não queria mais aquela faculdade, aquele trabalho, não queria mais viver. Depois da fase crítica, medicado, foi aprovado num estágio em Goiás, onde também terminaria o curso. Aceitou, sem resistência, que a mãe fosse com ele, mas só até se instalar e poder deixar os antidepressivos.  Mais cinco meses com a vida suspensa, atrás dele. O pai ficou, tinha os negócios para cuidar...

- A senhora trabalha? Anota aqui na ficha um contato comercial, por favor.

O meio da vida, para a mulher, é um período delicado. Tempo de olhar para dentro, realinhar o foco. O filho finalmente parecia estável, independente. O marido, acostumado ao desespero do prover, não percebia que a vida estava mais leve. Enfurnado no trabalho, não conseguia mais ser parte de um casal. Ambos sentiam um incômodo que não sabiam nomear.

Estava ociosa, devia ser isso. Quis voltar a trabalhar, mas tinha pouca experiência e muita idade para o mercado competitivo. A saída era tentar um concurso público. Comprou calhamaços de apostilas e passou a devorá-las no café da manhã, na sobremesa, no lanche da tarde, na pipoca sem filme. Deu certo. A rotina era burocrática, mas ao menos fazia algo útil e tinha autonomia financeira.

Foi então que Laura chegou, trazendo Tobias de volta a São Paulo, com sorrisos nunca vistos antes no rosto daquele menino-homem.  Anel, festa, casa e... Juliana.

- Tenho no celular, deixa eu ver... Pronto. Ah, veja aqui, esta é a foto da minha netinha!

Juliana era o nome da nova fase da vida de Rebeca. Em forma de neta, essa criaturinha a fez rearticular gerações, acolher um galho novo na árvore genealógica. Ela passou a ser as noites de terça e quinta, alguns sábados e todos os domingos, inclusive o de Natal, quando Tobias informou que mudariam para a Noruega. Rebeca ficou muda e odiou o filho por alguns segundos, uma sensação tão nova que chegou a assustar. Não imaginava mais a vida sem aquela menininha por perto.

O marido também silenciou e consentiu com a cabeça. Sem se olharem, ele leu a respiração da mulher e a acalmou, encaixando os dedos entre os dela. Antes de dormir, apertou-a nos braços: “Eles vão precisar de você. Se quiser, pode ir, eu fico e cuido das coisas por aqui.” De alguma forma, essa provável nova partida já doía bem menos do que antes.

- Que menina linda! Mas isso não é no Brasil, é?

O filho, tão acostumado com a mãe sempre por perto... A esposa também aprovou a ideia, seria ótimo ter alguém para cuidar da filha e da casa, enquanto eles se dedicavam a suas carreiras bem-sucedidas. Rebeca achou normal mais uma vez se afastar das suas coisas, do trabalho, de casa, do marido. Pediu licença do cargo, renovou passaporte, preparou documentação e escolheu, de novo, percorrer um caminho que outro tinha escolhido.

- Não, ela vive bem longe daqui. Eu também morava lá.

- A senhora vai voltar para esse lugar?

Numa dessas rápidas vindas ao Brasil, olhou seu homem envelhecido e triste. Só então percebeu que ela também estava envelhecida e triste. Ainda se amavam, de alguma forma. Por décadas tinham cumprido um compromisso, mas sabiam que não dava mais. Onde haviam errado? As articulações esticadas, desgastadas, já não uniam mais nada. Era hora de podar os galhos para fortalecer a raiz, de romperem as amarras com o outro para salvarem a si mesmos.

- Não, para lá não.

Já tinha ficado fora tempo demais. O filho, a neta, o marido, todos passaram pela ponte e precisavam seguir. A que acolhe, dizia a mãe. Era hora de acolher a si mesma, de também atravessar a ponte, virar estrada.

A advogada abriu a porta e veio buscar a cliente com um abraço:

- Venha comigo!

O futuro dava um pouco de medo. E de tesão: iria alugar um apartamento na praia e comprar uma bicicleta. Quem sabe, aprenderia a surfar e a tocar bateria e a dançar tango e...

 

 

Orelha e o Cão Tinhoso, um encontro infeliz

  Orelha e o Cão Tinhoso, um encontro infeliz Sueli de Britto Salles           Janeiro de 2026. O mês termina transbordando comoção so...