quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O homem da casa

 

          A caneta tremendo na mão. Não vou conseguir, essa porcaria não para. Vai ficar aí olhando, saco! Deixa eu!

            Ele não era idoso, mas estava velho: não enxergava direito, as pernas mentiam o passo, a magreza engolia a carne, a pele escorregava toda pintada. E ainda tinha essa desgraça de tremedeira.

            A mulher, com quem estava casado há mais de quatro décadas, era só três anos mais nova, mas parecia pertencer a outra geração. Maleável, adaptou-se ao passar do tempo e, por isso, não conseguia mais enxergar, naquele ser rabugento, o homem por quem um dia fora apaixonada. Ainda assim, havia algum tipo de amor entre eles e brigar todo dia era uma forma de estabelecerem contato. Naquela manhã, ali parada, testemunhava o triste fato: ele já não era mais capaz de registrar o próprio nome.  Você é um grosso mesmo! Tá assim porque precisa de pinga, não é mais homem sem ela!

            Cala essa boca! Deixa eu, deixa eu! Ele precisava mesmo da cachaça, ela sim sua companheira por tantas fases difíceis na vida. Alcoólatra? Claro que não, dizia ele. Bebia socialmente. O problema é que só ficava sociável se bebesse. E se bebesse demais, esquecia o social. Para sair do ostracismo de menino pobre, aprendeu cedo que precisava se destacar, estar à frente, e não havia espaço para fraqueza. Sempre fora assim, sempre o líder: entre os irmãos, por ser o mais velho; no exército, no posto de cabo; na gráfica, como chefe de seção. Inflava o peito e escondia suas inseguranças atrás daquele personagem.

            Quando jovem, pinta de galã, cantava na orquestra. O trompete podia falhar, mas o cantor, nunca.  Claro que dava medo, então uma colher de óleo e um ou dois conhaques amaciavam a voz e fortaleciam o espírito para subir ao palco dominando. E dominava. 

            Assim que a mulher deixou a sala, ele pigarreou grosso, concentrando-se, para tentar mais uma vez fazer a assinatura. Treinava rabiscos num pedaço de papel, mas não conseguia ficar na linha. Não dava! Não era só a mão que travava... Parecia ser antes, algo no topo da cabeça que a empurrava para baixo, prensando o pescoço, curvando o ombro.

            Eu comprei esse carro! Ele é meu! Agora vendem ele e eu fico com o quê? Um olho na letra torta, o outro no documento do Fusca.  O carro ainda estava bom, aguentava. Mas não tinha volta, já estava vendido, o dinheiro, mixaria, para quitar o carnê de eletrodomésticos.  Pra que geladeira nova? Minha mãe conservava as coisas na lata de banha e não estragava nada! Mal sabia ele que a conta era só desculpa da mulher para justificar a venda do carro.

            Peguei um vinho pra você! Vê se melhora com ele... A mulher, generosidade ríspida, acabava conivente com a situação. Sabia que o marido pertencia muito mais ao vício que a ela. E precisava que ele assinasse!

            Ele virou o remédio num gole. É só frio, já vou esquentar, o vinho ajuda. Pega meu pulôver amarelo, vai! Não havia “por favor”, mas o tom já era mais ameno. No teatro da eterna luta, certas gentilezas só podiam ser trocadas sob o disfarce de pouco caso.

            O Fusca estava mesmo detonado. Vinte e oito anos de inúmeras raladas em postes e paredes; cinco batidas feias em outros veículos, três com vítimas. Na última, o carro foi parar embaixo de um caminhão e ele, o motorista, passou uma semana na UTI. Foi o limite: os filhos confiscaram-lhe a carteira de habilitação e o carro foi vendido para o desmanche.

            Ficar velho é assim: todo mundo querendo mandar na gente! Não dá pra aceitar isso... Quem manda aqui sou eu, repetia em pensamento. Tinha ensinado a mulher, os três filhos, todo mundo aprendeu a dirigir com ele. E naquele Fusca! Agora vinham dizer que, se continuasse bebendo, não podia mais dirigir. Que tinha que tomar remédio e parar com o álcool. E podia o quê? A vida virou o quê?

            Consolo ainda eram os amigos do bar, mas também já estavam meio velhos, meio doentes, meio morrendo, vez ou outra. Em casa, tudo distante: filhos ocupados com carreira e modernidades que ele não entendia, a mulher que se enfiava na casa das amigas pra jogar bingo , a televisão que só passava novela e pouca vergonha. Assim, agarrava-se ao seu orgulho de leão velho para rosnar pela casa o seu posto sagrado de rei. Gritava para provocar seu bando, para se fazer existir.

            Ouviu o chinelo arrastado da mulher que voltava com o pulôver. Não dava para enrolar mais: apertou a caneta com as duas mãos e, sem respirar, desenhou o nome no documento. Estava feito. Só não chorou porque lágrima também era algo que, havia tempos, secara daquele corpo.

            Quando ela esticou o pulôver, ele entregou o papel. Não podia encará-la. Sentia-se menos homem naquele momento. A mulher conferiu a assinatura, guardou rapidamente o documento na bolsa e voltou com um envelope, sentando-se ao lado dele. Deixa o Fusca pra lá, velho, isso não importa.  Os meninos pediram pra te entregar isso aqui, pra te fazer uma surpresa.

            No envelope, outro documento, que a mulher explicou. A filha tirara carro novo no consórcio e, num acordo com os irmãos, iam deixar o dela para os pais, de presente. Ele, apesar de surpreso, torceu o nariz. Nunca tinha guiado um tão mais novo, achava que não ia saber, além do mais estava sem carteira. O presente era pra mãe, isso sim, não era pra ele.

            Abre, olha aí! Tá no seu nome.

            Podia até não dirigir, no fundo sabia que não tinha como largar a  pinga, mas era o nome dele no documento daquele carro bonito, cheio de regalias. Ele mudo. Um sorriso quase escapou, denunciando a emoção sempre contida. Balançou a cabeça. Que sim. E voltou a fazer cara de quem não se importava. A mão, porém, parara de tremer. Estava tranquilo: era um carro dele que continuaria a ocupar a garagem. Ele ainda era o homem da casa.


 

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