Margarida gostava de “brincar” com os ovos de galinha, quando os pintinhos começavam a fazer furinhos para sair. Ansiedade incontrolável, ela, cinco anos, puxava os pezinhos do bicho, arrancando-os dali com tanta força que não dava tempo de alguma sobrevivência vir junto... A mãe, apesar de não dispensar a surra que o caso exigia, via naquele ato uma habilidade muito útil a quem vive na roça, tendo que matar tantas criações. A vida ali era para fortes e a menina aprendeu na marra a não temer qualquer desafio.
Na braveza da mãe, nenhum espaço para esperança. Era o modelo e o maior tormento da filha. E Margarida foi virando bicho brabo. E teimoso. Elas viviam se enfrentando, mas a pequena sempre levava a pior. Quando os buraquinhos da palmatória ficavam sujos de sangue, a mãe pegava a correia de couro trançado, instrumentos de educação. Haveria razão para bater tanto nas crianças? Bater a carne pra amaciar a alma, alegava.
Mas eis que, um dia, a mãe mandou a menina, uns 9 anos, ir até a roça buscar jiló para o almoço. Margarida, que odiava jiló, foi com a maior má vontade e trouxe no fundo da sacola uma porção dos mais feios que encontrou. Ah, o amargo gosto da provocação... É lógico que a outra percebeu de imediato e aceitou o desafio: ordenou que a filha voltasse lá e fizesse o serviço direito!
A menina sabia que, se dependesse dela, o jiló não iria para a mesa do almoço de jeito nenhum, mas também não era louca de se recusar a cumprir a ordem. Foi e, quarenta minutos depois, voltou com meia sacola de jilós bem piores que os primeiros.
Sem se fazer de rogada, a mãe respirou fundo e mandou a menina repetir a ação e depois de novo, e de novo, e de novo. Já passava de meio-dia quando Margarida voltou arrastando o pé inteiro de jiló, que jogou diante da mãe: “Não tem mais, acabou!”
A mãe mandou que ela lavasse os jilós e cozinhasse – todos eles – em um caldeirão enorme. Enquanto isso, tirou um assado com batatas do forno e alimentou os outros filhos, mas disse que esperaria a filha para almoçarem juntas. Quando o jiló ficou pronto, a mãe colocou os dois pratos na mesa e guardou todo o resto da comida, deixando apenas o caldeirão: “Nós vamos comer o jiló que você preparou!” Olho no olho, em silêncio, engolindo jilós, uma comia a alma da outra. Nem uma palavra, um descontrole, uma cara de nojo, um sinal de fraqueza.
Duelo mortal no amargor do espírito. Almas duras, forjadas pelo instinto de sobrevivência, desconheciam o sentido do carinho, da compaixão, do diálogo. Mastigaram o desafeto que as fazia tão semelhantes. Foi a última refeição que fizeram juntas. No dia seguinte, Margarida pegou estrada, foi para o mundo, ganhou espinho e mudou de nome, virou Rosa.
Dali a muitos anos, quando já estivessem tão tão distantes, provavelmente se lembrariam do dia em que por mais tempo ficaram juntas numa mesma tarefa. E sentiriam a alma esburacada.
