segunda-feira, 8 de março de 2021

Água e café

 

Água e café

 


Um sopro ruidoso escorregou da sua boca sem que ela percebesse. Era um movimento instintivo do corpo: jogava para fora o ar parado naquele peito tenso, que às vezes esquecia de respirar.

- Está entediada ou com TPM, Helena?, debochou um dos colegas de trabalho, na mesa de reuniões. Mas continuou falando com os outros, antes que ela respondesse algo.

No escritório de engenharia, apenas duas mulheres. Ela, efetivada há dois meses, após um ano como estagiária na equipe de análises químicas, e a Lurdes, que cuidava da contabilidade. Os outros 27 eram homens.

A reunião era para discutir o problema apresentado na amostra de polietileno. Ela não tinha acompanhado a análise, mas sua equipe iria ajustar o produto às necessidades do cliente de Brasília.  O grupo parecia não ter pressa, pois já falavam de futebol há quinze minutos. Estavam rindo, quando a porta abriu e o gerente entrou.

- Então, já começaram?

Samuel, o mais velho deles, numa encenação partilhada de seriedade, respondeu num vozeirão grave, entre o solene e o ameaçador:

- Estávamos esperando a sua chegada, mas como hoje é Dia das Mulheres queremos deixar a Helena começar. E aí, Helena, o que você descobriu?

Vinte e cinco anos, feitos havia dois dias, mas ninguém no trabalho a cumprimentara. Estava feliz com a efetivação, era uma conquista e tanto, o primeiro registro em carteira como engenheira química. Durante o estágio tinha passado por muitos desafios: omissão de dados, tarefas repetitivas que não exigiam conhecimento técnico, insinuações maliciosas. Eram traços do mundo masculino em que ela se arriscava a entrar.

Agora ali, em sua primeira reunião como parte efetiva da equipe, percebeu que tinham lhe preparado uma cilada. Havia uma semana, toda a equipe PE, da qual fazia parte, tinha recebido amostra do material com solicitações por e-mail, mas eles a orientaram a ignorar, alegando ser mensagem errada, já que o caso caberia à equipe PP. Mas quem iria acreditar nela agora? Não havia registro dessa conversa. Ela não tinha nada a apresentar e, com certeza, ficaria queimada com o gerente, tudo que aquele amontoado de testosterona queria, pois não admitiam uma mulherzinha naquele seleto meio.

- Desculpe, Evandro, não entendi que caberia a mim tal tarefa – respondeu, travando os músculos do rosto para não demonstrar fragilidade.

O gerente a olhou com seriedade, mas logo percebeu a satisfação brilhando nos olhos dos urubus e agiu rápido:

- Não tem problema, tenho certeza que a comunicação entre a equipe deve ter falhado. Explique você mesmo, Samuel.

- Claro, mas, será que a mocinha pode pegar água e café para nós, enquanto eu distribuo o relatório?

E imediatamente outro engenheiro começou a falar com o gerente, não dando tempo de qualquer intervenção.

Helena parou de respirar novamente. Mocinha. Água e café. Não havia problema algum em pegar água e café. Ou fazer qualquer outra gentileza, desde que todos fizessem também. Quando era estagiária, por muitas vezes, foi pegar água e café. Por muitas vezes, fingiu não ouvir as piadas. Por muitas vezes, fez-se de cega diante de olhares insinuantes. Por muitas vezes, aceitou o manto da invisibilidade para não ser devorada pelo monstro do machismo que habitava aqueles corredores.

Na faculdade, cinco mulheres numa sala de quase sessenta homens. Era a rainha do truco, acompanhava na cerveja, fazia bem o social para não ser notada pelas suas notas altas, para que nenhum dos colegas a visse como uma ameaça. Ela era a parceira. A única professora que teve no curso um dia a aconselhou: “Tenho muito orgulho de você, mas seja forte, porque você está entrando num espaço de egos gigantescos! Vão tentar te esmagar.”

Água e café. Cinco anos de faculdade com nota máxima. A única contratada no grupo de cinco estagiários. Água e café?

Helena sentou-se, relaxou a face e pousou suavemente as mãos cruzadas sobre a mesa. O que estava ao lado de Samuel cutucou o colega e disse algo baixinho, provocando a reação irritada do outro: “Cadê o café, menina?”

- Seu ... Como é mesmo seu nome? Desculpe, sei que o senhor já é idoso e tem dificuldade para ir sozinho pegar seu café, mas acho melhor um dos colegas que já acompanhou a análise ir buscar, porque eu preciso me inteirar da pesquisa. Ah, e caso o senhor não saiba, o meu nome é Helena e eu sou engenheira.

O gerente disfarçou o riso de quem tinha aprovado a atitude da contratada. Aquele não seria o último episódio de machismo, mas a ameaça de advertências trabalhistas e até de um processo por sexismo acalmou os humores da equipe de trabalho.  

A chegada de mais duas estagiárias e a contratação da segunda engenheira não resolveriam o problema, mas tornariam a luta menos desigual.

 

 

 

 

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