segunda-feira, 7 de junho de 2021

Angélica


         Cresci cheia de mimos e zelos de quatro fortalezas que ocupavam a minha casa: minha mãe, o marido dela, minhas duas irmãs. Eu era o contraste, por isso nunca entendi qual seria realmente minha ligação com aquela família. Mesmo adulta, ainda era comum ver os outros cuidando dos meus passos. Foi assim até aquela manhã de fevereiro.

 Zara deslizava os dedos habilidosos pelos meus fios, trançando um penteado.

- Ai! Doeu!!

- Xiu! Não mexe. É pra ficar bonita! Não quer?

Queria. Queria mesmo ficar bonita feito ela. Grande, preta, linda. Aquele cabelo bombril que ela, num puxa e estica, transformava em estilo total. Ela, atriz por formação, modelo de revista, era minha irmã mais velha, do primeiro casamento da minha mãe.

- Pronto, Ji. Tá linda pra ir fazer sua matrícula na faculdade! A Ondina vai te levar?

Ondina era minha outra irmã, filha do terceiro casamento de mamãe. Com 19 anos, 1,85m de altura, músculos de atleta (era central no vôlei e pivô no basquete), Ondina já cursava o segundo ano de Engenharia numa faculdade federal.

- Vai sim, ela sabe que eu ainda tenho medo de dirigir nas marginais – confirmei, envergonhada de tantos limites. Eu era ruim de volante, de escola, de namorado, de esporte, de música. E agora ia encarar uma faculdade paga, num curso sem prestígio, tão diferente delas...

Zara me abraçou carinhosa:  ia dar tudo certo, o curso seria bacana e essa história de faculdade pública ou particular, tudo bobagem, eu ia ver. Que eu não me importasse da Ondina ter entrado antes, uma apressadinha, tudo tinha seu tempo... Naqueles braços, eu me sentia com 10 anos e não com os 23 que a certidão de nascimento denunciava.

É mais fácil falar de mim falando delas: Ondina e Zara, meio irmãs, meio primas, eram muito parecidas (na estatura, nos traços faciais, na inteligência...). Eu destoava em tudo.

Quando nasci, minha mãe olhou aquela criaturinha rosada, de cabelos esbranquiçados e dois laguinhos azuis no meio do rosto. O nome escolhido, Angélica, tão óbvio, um clichê. Num carinho que nunca me caiu bem, me chamava de “anjinho” (que depois virou jinho e finalmente Ji). Não queria ser anjo e sim uma pantera negra ou uma loba, como o resto da matilha.

            Segui rumo à Pedagogia, mais acreditando que seria fácil do que por aptidão. Além disso, aquele era o curso ideal para eu ganhar mais segurança, afinal seria bem maior e mais forte que os alunos da educação infantil! Mas isso só depois de formada, e eu ainda ia começar... Conseguiria? Abandonei meus pensamentos para ver minha irmã dirigir: sua habilidade era uma provocação aos meus tantos medos.

Ondina, no trânsito, basquete nas marginais, fintando o primeiro, driblando o segundo. Faz um corta luz no caminhão e gira entre as motos para achar o ângulo do arremesso. Um show de pilotagem. Mas o celular tocou e ela, um décimo de segundo com olhos na bolsa, não percebeu o adversário roubando-lhe a bola: capotamos três vezes e paramos sobre as grades de proteção, as rodas da frente quase tocando o rio.

            Um golpe de ar invadiu minhas narinas, chacoalhando meu cérebro, que voltou a trabalhar. O carro, bola enroscada entre a bandeja e o aro. Eu, rezando pra não cair... Conferi que, em mim, aparentemente tudo funcionava, apesar do corte no braço esquerdo. O sangue de Ondina tingia o ferro retorcido. Estaria viva? Sim, apesar de quase inconsciente, ela às vezes gemia. Não dava para esperar ajuda, poderia ser tarde...

Ela precisava de mim, da minha atitude, então destravei os cintos de segurança, o meu e o dela. Com o balançar do seu corpo, o carro desceu mais um pouco, quase rompendo de vez a grade que o sustentava. Abri a porta e em segundos estava ao lado dela, arrancando-a do carro, um pouco pelos braços, um pouco pelos cabelos, grunhindo uma ancestralidade instintiva que me dava força para proteger essa outra vida.  

        Nosso sangue, na beira da marginal, misturava-se. Por dentro, éramos ainda mais irmãs. Finalmente entendi que, na pele de anjo, uma poderosa fera também vivia em mim.         

 
     

Cativeiro

 


Cativeiro

 

Ela me sufoca, me cala, me dopa.

Minhas mãos atadas no vazio da impotência assistem a tudo, perplexas.

Rolo compressor sobre minhas veias, vértebras de atitude dilacerando.

Não me reconheço. Ela me ocupa.

Não sou mais eu, ela em mim, eu outra.

Não vejo o tempo, engulo toneladas de acasos até não poder mais respirar.

Não penso, sigo obediente, zumbi de mim mesma.

E a que acredita, a que age, a que não aceita, a que, ao menos, grita?

Onde, onde está essa pessoa que costumava ser eu?

Tem alguém aí dentro?  

 s  o  c  o  r  r  o...

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