Orelha e o Cão Tinhoso, um encontro infeliz
Sueli de Britto Salles
Janeiro de 2026. O mês termina transbordando comoção social por causa da morte (por eutanásia) de um cão comunitário brutalmente espancado numa praia de Florianópolis, por um grupo de adolescentes. Seu nome: Orelha.
Será que a vida imitou a arte?
Se você conhece um pouco de literatura africana, talvez já tenha ouvido falar de um famoso conto do moçambicano Luís Bernando Honwana, publicado originalmente em 1964, no livro homônimo “Nós matamos o Cão Tinhoso” (2017) e referenciado no conto “Nós choramos pelo Cão Tinhoso”, do angolano Ondjaki, no livro “Os da minha rua” (2007).
Na arte e na vida, os cães ganharam notoriedade por terem sido vítimas do impulso agressivo de meninos que agem em grupo, explodindo adrenalina numa violência que os faz se sentirem mais fortes, corajosos e aceitos em determinada coletividade. Então é isso, coisa de moleque, como chutar bola, certo? Errado.
Nos dois textos, a sensibilidade é vista como fraqueza e compromete a aceitação dos meninos pelo grupo. Para os meninos do primeiro conto, que foram manipulados por um adulto, matar o cão era um jogo, um ato de coragem. Acompanhamos a história pelos olhos do personagem Ginho, que era rejeitado (assim como o cão) e buscava ser incluído. Ele, mesmo sofrendo com o destino do cão, não teve forças para impedir o ato. No outro conto, de Ondjaki, um garoto, emocionado diante da sala de aula, precisa ler o desfecho da história do Tinhoso, mas não pode chorar, para não mostrar fraqueza.
A história do Cão Tinhoso é cruel, sim. Mas é arte. Tem recebido diversas interpretações sobre a simbologia do animal doente de olhos azuis (referência aos europeus?), que persistia vivo pelas ruas como o diferente, o de fora, numa época em que Moçambique lutava para se libertar dos efeitos da colonização portuguesa, que só terminou mesmo em 1975. O povo, oprimido por tanto tempo, precisava de coragem para retomar sua terra, sua dignidade, seu próprio modo de olhar para a realidade e eliminar os rastros do explorador.
Em Florianópolis, a situação é bem diferente. A capital de Santa Catarina oferece um dos mais altos padrões de vida do Brasil. Pelo que se sabe, os quatro adolescentes estão muito distantes da realidade africana dos contos. São estudantes de colégio particular e, dois deles, depois do ato, foram enviados para os Estados Unidos. Orelha era um cão preto, de 10 anos, dócil, conhecido e amado pela comunidade que frequentava a Praia Brava. Mas ele não tinha olho azul. Aqui, ao contrário do conto, talvez isso o salvasse.
Não sabemos, ainda, a versão dos agressores, que estão protegidos pela lei. Mas esse caso estremece nossa fé nas pessoas e nos faz pensar nas inúmeras violências (explícitas e veladas) cometidas por seres humanos desde sempre. É inegável que haja um prazer sádico em quem pratica (ou apenas “aprecia”) ações violentas contra outro ser vivo. As históricas “atrações” no Coliseu de Roma ou o sucesso de público dos Autos de Fé, os “heróis” das touradas e as “inocentes” brigas de galo são apenas alguns exemplos das ações monstruosas que “gente civilizada” é capaz de cometer.
Na arte, a violência pode ser funcional, pode humanizar. A catarse na tragédia grega, conforme explicado por Aristóteles no livro “Poética”, é a purificação das almas através do terror e da compaixão, acalmando os impulsos animalescos do público. Talvez, o que falte a meninos como os de Florianópolis seja mais educação, leitura, emoção. Amor, com certeza. Quem sabe se tivessem se comovido com o Cão Tinhoso...
Que a arte nos salve!
ARISTÓTELES. Poética. Tradução, introdução e notas de Eudoro de Souza. 3. ed. São Paulo: Ars Poética, 1993.
HONWANA, Luís Bernardo. Nós Matamos o Cão-Tinhoso! São Paulo: Editora Kapulana, 2017.
ONDJAKI. Os da minha rua: estórias. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007.