Oito anos. Chico partiu na roda viva como parte da bagagem. “Você pode ficar com tudo, mas o gato eu levo.” Pode levar. Despedidas são coisas estranhas, doídas, que ficam piores quando se negocia liquidificador. Andava lendo uns livros de empoderamento, mesmo. Pode levar o que quiser.
Talvez fosse bom, precisava experimentar viver só nesse lugar que era ela mesma. Esse lugar tinha um nome: Rita. Ocupá-lo exigiria habilidades que ela nem desconfiava possuir. Por isso, primeiro veio o silêncio dos mundos, que precisou ser preenchido com infindáveis séries de tevê, estudo de japonês madrugada adentro e muito, mas muito chocolate. Três meses.
Um dia, quando a luz do sol destacou a mancha de copo na mesa da sala, ela começou a ver. Viu a mancha e desconfiou de todo o resto. Detetive da própria casa, passou a olhar as paredes, as almofadas, a dobradiça da porta. Abriu janelas, comprou cama nova, mudou a decoração, colocou flores no vaso. Seis meses.
Onze meses. Acordou sem se preocupar com a hora. Era sábado. Esticou-se para alongar os braços e a coluna, como a professora de pilates tinha indicado. Já sentia o abdômen mais firme, a respiração mais equilibrada. Estava feliz em ser, ela mesma, sua melhor companhia. Mas, entre um gole e outro de café, acabou assumindo que sentia falta de amar outro ser. Já estaria pronta para se arriscar de novo? Não, não, bobagem... E saiu cantando Belchior: “Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro”.
“Que bom! Até sexta, Rita”. A terapeuta pareceu boa, ia continuar. É que um dia desses um outro raio de sol bateu em algum lugar entre o pulmão e o coração. Tinha uma música estranha saindo dali, parecia um bolero, e ela quis investigar. Com o tempo também passou a ouvir um rock pesado e até um sambinha. Curioso isso, descobrir suas melodias internas. Um ano e qualquer coisa.
Entrou na rodovia e viu o cão atordoado, correndo de um lado ao outro, desvia de um, corre, volta, para, corre. Rita parou de respirar, não queria ver, não podia. Ele escapou, voltou para o acostamento. Ela jogou o carro para o canto da pista, ligou o pisca-alerta e saltou na direção do animal. Ele correu de novo, voltou para a pista, tinha medo dela, um caminhão buzinou, tirando uma fina.
Então ela se agachou no recuo da pista e começou a chorar a ira dos inconformados. Tanto empenho para superar as perdas, sair do fundo do poço, para agora ver um cãozinho ser atropelado na sua frente? Um carro reduziu a velocidade, fez sinal para os de trás, e o cão finalmente conseguiu voltar para o acostamento. De rabo e orelhas baixas, veio se aproximando daquela humana fragilizada e deitou-se ao lado dela. Ela, ainda soluçando, esticou de leve a mão no chão, com a palma para cima, para ele cheirar. Depois acariciou uma patinha e a cabeça e o corpo. Ele lambeu seu braço. Foi assim que se comprometeram, nesse primeiro encontro.
Quando o carro passou pelo pedágio, ouviam Hyldon: “Jogue suas mãos para o céu e agradeça se acaso tiver alguém que você gostaria que estivesse sempre com você...”. O cão latiu e ela respondeu: “Sim, Rildo, claro que eu também te aceito”.
Dois anos. Cinco anos. Dez anos...