quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

A vizinha ostenta

 


A rua pequena, duas quadras sem saída, bem no miolo do Jardim Paris. Foi o que sobrou da tradição, devorada pelas beiras por condomínios modernosos. Naquele agrupamento de casas classe média, nenhum morador novo há mais de uma década e, se quem vivia ali não chegava a ser amigo, ao menos seguia um mesmo padrão estético na hora de encher o guarda-roupa e a garagem. Não havia conflitos entre eles, pois a comunicação limitava-se ao silencioso pacto da elegância.

O fato é que a casa 33 vagou de repente. Ninguém nunca soube muito bem o que aconteceu, apenas que, a partir de uma certa 4ª.feira, uma mulher nova começou a circular com um vira-lata caramelo na coleira. Estranhos, destoavam no ambiente. Ele cheirava os postes, deixava seu jato em cada portão. Ela, arrastando um tamanco de madeira, olhava demoradamente cada pedaço de calçada, cada árvore, cada nuvem no céu. Quando não dava para disfarçar, alguns moradores acabavam por responder ao tal bom-dia, mas desviavam logo, com medo de uma aproximação.

A da casa 15 foi procurar notícias com a da 17: sem sucesso. E o regulamento? Aquilo podia? Podia vira-lata? Precisavam ver no livro de registros...

A estranha da 33 vivia sozinha com o cão. Dirigia um duas portas, azul desbotado, de uns 20 anos. Da janela do passageiro, o caramelo comia vento, as orelhas empurradas para trás. Mas saíam sem regularidade, o que impedia saber-lhes a rotina. Trabalharia fora? Aliás, trabalharia?

Oito dias depois de sua chegada, a crise realmente se instalou:  o segurança, agitado, tentava expulsar um grupo de indigentes que se aglomerava em frente à casa 33. Tinham chegado em bando, ele sozinho... Os moradores iam ficar “P” da vida! Era cedo, saltos e gravatas, antes de entrar no carro, olhavam-se indignados, decidindo o que fazer.  O burburinho atraiu a atenção de quem espiava por trás da cortina e, em pouco tempo, a situação tinha virado um grande evento.

A da 33 surgiu, então. Sem dizer palavra, abriu o portão, recolheu os que estavam esperando e, pedindo licença, voltou a fechar.

O segurança aguardava alguma ordem, alguma pergunta, mas ninguém se atreveu a declarar medo ou asco. Voltaram elegantemente para suas rotinas,  não sem antes certificar a tranca das portas e deixar um ou outro de casa responsável por enviar notícia do que observava.

Durante a manhã, veio um caminhãozinho, não deu para ver trazendo (ou levando) o quê.  Veio outro carro, de restaurante, e ouviu-se muita conversa. E risadas, muitas risadas altas.

Ao final do dia, a nova da 33 abriu o portão para tirar o carro. Nos bancos, malas, alguns cacarecos. Na janela, as orelhas esvoaçantes do vira-lata, ostentando uma liberdade insuportável.

Saiu dando tchau ao grupo acolhido horas antes, agora os novos moradores de uma das casas que ela herdara – e  que não usaria durante os anos em que estivesse vivendo no exterior.

 

 

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