terça-feira, 24 de novembro de 2020

Isto (também) não é um cachimbo

 

 

  O desafio do mês era uma história que incluísse um homem fumando um cachimbo. O grupo se divertia durante o processo criativo e o tal homem do cachimbo ia ganhando contornos nos diversos textos que se concluíam. Um dia antes do encontro, todo mundo já tinha enviado o seu. Menos eu. 

“Queridos amigos, creio que não poderei participar da reunião de amanhã. Peço desculpas pelo meu silêncio no mês que passou. Tenho buscado dentro de mim o tal homem do cachimbo e o filho da mãe não diz uma palavra. Não sei quase nada sobre ele, não consigo contar sua história e, quando tento um caminho, ele me olha com superioridade, debochando: não sou eu. O fato é que, um mês depois, brigando com esse sujeito, chego à sexta-feira sem meu texto...” 

            Apago o e-mail, sem enviá-lo, inconformada com o texto que não produzi. Não posso admitir isso, uma greve de personagem. Quem ele pensa que é para me paralisar assim? Resolvo colocá-lo em seu lugar, na insignificância do seu lugar. Ele me deve satisfações e, encurralado, aos poucos começa a abrir o jogo. 

            Afinal o que é um homem que fuma cachimbo? Que ser estranho é esse? Este com que tenho me aborrecido tem 72 anos.  Economista de formação, aposentou-se no serviço público federal e escreveu, durante anos, uma coluna para um importante jornal, tudo registrado por uma Remington da década de 60. Manteve a máquina de escrever ao lado do telefone preto de disco, com fio. Preciosidades, ele dizia. Nunca foi consumista, embora tivesse dinheiro suficiente para isso. Também não era homem de fazer investimentos: torrava a gorda aposentadoria com whisky e corrida de cavalos. 

            Mas ele fala pouco. Quase nada. Outro dia comentou algo sobre um ministro da era Figueiredo e o golpe no banco estadual. Não entendi o caso, ainda era tão pequena. Mesmo hoje, não gosto de política, ignorância imperdoável. 

            E o tal cachimbo? Presente de um diplomata americano. O tom de pouco caso com o objeto não combina com a cena que faz para acendê-lo, cheia de rituais. Entre uma pitada e outra, me olha de canto, quase ignorando meu ar fingido de soberania.  

 

- Apague essa porcaria! ordenei. Não aguento esse cheiro horrível. Essa janela não abre, não pode ver? É papel. É ficção. Aqui não tem ar!  

- Ah é? Então, se não tem janela não tem cachimbo, não tem fumaça, não tem cheiro! Bobinha... 

            Bobinha. É assim mesmo que me sinto perto dele. Caminho pelo seu quarto, vou até a tal janela. Os carros continuam passando sob a chuva, deixando as marcas dos pneus... Preciso pensar em algo para me livrar dele, presença insuportável. 

            - E então, o que está te incomodando? Seja breve e acabamos com isso logo! 

Ele não responde. Abre o livro, em pé, ao lado da estante. 

Espero alguns minutos e, diante da sua total indiferença, começo, em voz alta a contar sua história assim mesmo: 

            “Ele tinha sido traído pela mulher  e, na velhice, lembrava a dor de...” 

- Que é isso, pilantra? Não sou Dom Casmurro!  

- O quê? Vai negar o coração partido? Tá na cara que esse mau humor tem nome de mulher! 

- Sou viúvo há mais de vinte anos. Nem devia te contar isso. Se fui traído já faz tempo demais, não acha? 

- ... 

            Precisava começar de novo. Indivíduo difícil, assim não dava. 

“Naquela noite, não podia parar de pensar na tal duplicata. Seria protestada na manhã seguinte e a hipoteca da casa...” 

- Como é que é? Vai falar de dinheiro, de dívida, logo comigo, um economista?? Você prestou atenção no que acabou de dizer? Espie minha conta bancária e pare de falar bobagem! 

            Respiro fundo para não mandar o sujeito para o inferno. Ainda preciso dele. 

- Você quer declarar alguma coisa? Podia parar de criticar e contar logo sua história! 

- Quero que vá embora! Que me deixe! 

            É claro que eu não vou. Acomodo-me na cadeira de balanço, ao lado da cama: 

“ Abriu a gaveta da mesinha e sacou o revólver. A arma com que pretendia eliminar seu antigo sócio, o homem que o desmoralizara diante dos clientes com o caso do banco estadual. Colocou as balas, uma a uma, lambendo-lhes as bordas, numa espécie de ritual...” 

            Silêncio. O velho não fala nada, não se incomoda com o novo rumo que sua participação em minha história tinha ganhado. Continuo: 

            “Sim, ele mataria aquele desgraçado que roubara dele tanto dinheiro e... a mulher.” 

            - Lá vem você de novo com essa história de traição. Já falei para não mexer com a minha senhora (que descanse em paz)! 

- Ah, afetei-lhe os brios? Então corre sangue nessas veias de celulose? 

- Melhor ter celulose na veia do que celulite na... 

- Espere aí, camarada, o nível dessa conversa tá ficando baixo demais! Me respeita que eu posso acabar com você! 

- É, e vai fazer o quê? Vai me deletar? E ficar sem sua historieta? Ah, você é uma grande cobarde, isso sim. E esse beicinho, o que é? Vai chorar? 

            Claro que não, foi uma lágrima só, um desconforto ocular. A fumaça do cachimbo, no quarto todo, começa a irritar meus olhos. Levanto da cadeira e, tateando os móveis, encontro-o sentado diante da máquina de escrever: 

            - Querida, enquanto você fica aí sofrendo para fazer duas páginas, estou terminando meu romance de 40 capítulos. 

- Você?  Então virou escritor? Mas eu pensei... 

- Pensou nada. Ficou aí tentando me botar triste, traído, enroscado. Eu estou bem demais, saúde invejável, altíssimo nível de produtividade. Só preciso que você vá embora para eu concluir o capítulo final. Agora ande, saia daqui, porque ALGUÉM precisa trabalhar! 

            Abro a gaveta da escrivaninha e lá estão umas duzentas páginas datilografadas. Tanto texto me deixou com um buraco no estômago. Continuo de onde tinha parado: 

 

“Então olhou de novo para o revólver, carregadinho.  Pensou na mulher que o TRAÍRA (sim, ela o tinha traído), e no sócio que o roubara, e na casa hipotecada. Inconformado com o rumo que sua vida tinha tomado, de súbito colocou o cano da arma na boca e atirou.  

Ah, que pena! Ele queria tanto ser escritor...” 

            E aquilo que caiu no chão, afinal, era mesmo um cachimbo? Bom, seja lá como for, escrevo o e-mail: “Caros amigos, vejo vocês amanhã em nosso encontro. Segue o meu texto...” 

 

 


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

E se eu te decepcionar?


         O bolo amanhecido, mastigado lentamente, avolumava-se em minha boca, alongando aos extremos o silêncio à mesa. Meus olhos se escondiam no livro, em tabelas periódicas, desculpa de prova para fugir do iminente inquérito da minha mãe. Que barriga é essa? – questionariam seus olhos, cravados nos meus, quando os encontrassem. Por isso os meus fugiam...

Enfiei o dedo no copo para tirar a nata. O leite começava a me enjoar, como quase tudo, nos últimos tempos.  A barriga mexeu-se um pouco. Sim, havia ali um bebê, resultado da minha primeira transa. Aconteceu num carnaval com o cara mais lindo da noite, Fernando, um goleiro do interior que estava fazendo teste pra jogar na Portuguesa. Beijos no meio do salão, amassos no carro.  Pedi pra parar, mas ao ver seu riso perplexo diante da minha virgindade, cedi, morta de vergonha por ser tão inexperiente. Depois ele sumiu, como quem se recolhe para a quaresma antes mesmo da quarta-feira.

- Toma o leite, Eduarda! Para com essa cara de nojo! – o pai ralhava, cada vez mais impaciente com meus momentos de divagação – Vai querer carona pra escola? Já tô de saída...

- Não, pai, hoje vou mais tarde só pra fazer prova – escorreguei, evitando dar chance a ele de perguntar alguma coisa. – Vou de ônibus. Valeu...

Quando os enjoos começaram e a menstruação sumiu, soube que aquele ato mudaria minha vida para sempre. Mas o que aconteceria comigo? Meu pai me mataria? Me botaria na rua? Pânico dividido apenas com a Ju, minha melhor amiga. Foi com a ajuda dela que consegui encontrar Fernando de novo:

- O que quer de mim? Quer dinheiro pra tirar o bebê? Não posso assumir, foi só um lance. Nem sei se o filho é meu mesmo...

Não, aqueles olhos não tinham mais a sedução e a delicadeza que um dia me tiraram para dançar. Pelo menos era como eu me lembrava dele até aquele momento. Agora, nas poucas vezes em que me fitaram, camuflaram-se sob uma bruma de medo e desconfiança. A conversa, em pé, no meio da calçada, não durou vinte minutos.

Para ele era simples assim. Gozou e foi embora. Eu que resolvesse, que não havia nós. Meses mais tarde, quando meu pai descobrisse tudo, por pouco o aprendiz de goleiro não iria parar na cadeia por sedução de menor. Depois daquele dia, ainda conversaríamos algumas vezes, mas apenas para eu me convencer do quanto ele era um tremendo idiota.

 

 Os meses de calor se foram e as roupas de frio camuflaram os novos contornos do meu corpo. Estávamos em junho, numa quinta-feira, a manhã seguinte ao meu aniversário de dezessete anos, comemorado discretamente com bolo e guaraná durante o intervalo da novela.  Mal o pai saiu, minha mãe sentou-se à mesa comigo, segurando um café fumegante.

- Duda, o que está acontecendo? – ela devia realmente estar nervosa, pois fazia anos que ninguém me chamava por esse apelido – Você não quer me contar?

Não, é claro que eu não queria contar nada. Estava apavorada, vivendo dias intermináveis, no silêncio secreto da barriga que crescia, do peito que inchava, do quadril que alargava. Rezava todo dia, rezava para algum santo me evaporar da face da Terra. Ou fazer outro milagre qualquer, que apagasse aquele carnaval. Depois me arrependia um pouco, não podia mais voltar atrás, não podia ficar sem o meu bebê. Durante a noite os pesadelos torciam meus pés em câimbras insuportáveis, uma saída do universo para eu poder gritar meus medos sem precisar nomear a dor.

- Você nem tomou café direito. O que está acontecendo? – insistiu.

- Nada não, mãe. É essa prova de Química...

          Quando ameacei me levantar, ela me segurou pelo braço e tocou minha barriga. Senti um frio percorrer cada vértebra da coluna e o chão abrir-se sob os meus pés. Sentei novamente já sem saliva, sem lágrima, sem cor. O queixo grudado no pescoço, cordeiro pronto para o abate. Minha mãe, toda dificuldade para tratar de assunto desse tipo, não conseguiu dizer palavra sobre sexo.

- Quando você voltar da escola, vamos ao médico. Marquei um horário.

- Por quê? Você não está bem, mãe? – tentei, num ato de desespero, ainda desconversar.

Então o momento fatídico chegou: ocupada com essa pergunta idiota, baixei a guarda e, sem perceber, já tinha deixado meu olhar destrancado.  Ela não perdeu tempo e, encarando-me, invadiu meus segredos, vasculhando tudo no fundo dos meus olhos. No silêncio desse momento, senti ser revelado até o que nem eu mesma sabia: como tinha medo de decepcionar as pessoas, de perder o amor delas. Foi assim com Fernando. Era assim com ela, com meu pai.

- Faz tempo que te observo, faz tempo que espero você falar comigo. Também não sabia o que fazer, seu pai tem pressionado, tive medo da reação dele, mas não tenho mais. Não posso mais deixar você assim...

O que vai acontecer? Ensaiei por vezes pronunciar essa pergunta, mas não saía palavra. Acho que não precisava, ela de repente podia ler meus pensamentos.

- Vou cuidar de você. E do bebê.  O resto, todo o resto, depois a gente resolve...

E me abraçou, meio sem jeito, pra me proteger contra tudo que possivelmente despencaria sobre nós. Nesse calorzinho torto, adormeci meus medos.

O inverno mais frio da minha vida ainda reservaria fortes geadas, mas eu não estava mais sozinha. Mariana nasceu em novembro e floriu nossas vidas. Primavera: que bom! 


domingo, 22 de novembro de 2020

Um pé na lua


 

Publiquei um texto na semana passada no site Inkspired (https://getinkspired.com/pt/story/118318/e-se-eu-te-decepcionar/?ref=dashstoryprofile). Ele abriu um percurso semanal de publicações... as fases das minhas luas. Reproduzo-o aqui para marcar a lua nova.

 

Hoje, 22/11/20, com o início da lua crescente, abro caminho para o próximo texto, que será postado nos próximos dias.



 

 


 

 

 

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  Orelha e o Cão Tinhoso, um encontro infeliz Sueli de Britto Salles           Janeiro de 2026. O mês termina transbordando comoção so...