O desafio do mês era uma história que incluísse um homem fumando um cachimbo. O grupo se divertia durante o processo criativo e o tal homem do cachimbo ia ganhando contornos nos diversos textos que se concluíam. Um dia antes do encontro, todo mundo já tinha enviado o seu. Menos eu.
“Queridos amigos, creio que não poderei participar da reunião de amanhã. Peço desculpas pelo meu silêncio no mês que passou. Tenho buscado dentro de mim o tal homem do cachimbo e o filho da mãe não diz uma palavra. Não sei quase nada sobre ele, não consigo contar sua história e, quando tento um caminho, ele me olha com superioridade, debochando: não sou eu. O fato é que, um mês depois, brigando com esse sujeito, chego à sexta-feira sem meu texto...”
Apago o e-mail, sem enviá-lo, inconformada com o texto que não produzi. Não posso admitir isso, uma greve de personagem. Quem ele pensa que é para me paralisar assim? Resolvo colocá-lo em seu lugar, na insignificância do seu lugar. Ele me deve satisfações e, encurralado, aos poucos começa a abrir o jogo.
Afinal o que é um homem que fuma cachimbo? Que ser estranho é esse? Este com que tenho me aborrecido tem 72 anos. Economista de formação, aposentou-se no serviço público federal e escreveu, durante anos, uma coluna para um importante jornal, tudo registrado por uma Remington da década de 60. Manteve a máquina de escrever ao lado do telefone preto de disco, com fio. Preciosidades, ele dizia. Nunca foi consumista, embora tivesse dinheiro suficiente para isso. Também não era homem de fazer investimentos: torrava a gorda aposentadoria com whisky e corrida de cavalos.
Mas ele fala pouco. Quase nada. Outro dia comentou algo sobre um ministro da era Figueiredo e o golpe no banco estadual. Não entendi o caso, ainda era tão pequena. Mesmo hoje, não gosto de política, ignorância imperdoável.
E o tal cachimbo? Presente de um diplomata americano. O tom de pouco caso com o objeto não combina com a cena que faz para acendê-lo, cheia de rituais. Entre uma pitada e outra, me olha de canto, quase ignorando meu ar fingido de soberania.
- Apague essa porcaria! ordenei. Não aguento esse cheiro horrível. Essa janela não abre, não pode ver? É papel. É ficção. Aqui não tem ar!
- Ah é? Então, se não tem janela não tem cachimbo, não tem fumaça, não tem cheiro! Bobinha...
Bobinha. É assim mesmo que me sinto perto dele. Caminho pelo seu quarto, vou até a tal janela. Os carros continuam passando sob a chuva, deixando as marcas dos pneus... Preciso pensar em algo para me livrar dele, presença insuportável.
- E então, o que está te incomodando? Seja breve e acabamos com isso logo!
Ele não responde. Abre o livro, em pé, ao lado da estante.
Espero alguns minutos e, diante da sua total indiferença, começo, em voz alta a contar sua história assim mesmo:
“Ele tinha sido traído pela mulher e, na velhice, lembrava a dor de...”
- Que é isso, pilantra? Não sou Dom Casmurro!
- O quê? Vai negar o coração partido? Tá na cara que esse mau humor tem nome de mulher!
- Sou viúvo há mais de vinte anos. Nem devia te contar isso. Se fui traído já faz tempo demais, não acha?
- ...
Precisava começar de novo. Indivíduo difícil, assim não dava.
“Naquela noite, não podia parar de pensar na tal duplicata. Seria protestada na manhã seguinte e a hipoteca da casa...”
- Como é que é? Vai falar de dinheiro, de dívida, logo comigo, um economista?? Você prestou atenção no que acabou de dizer? Espie minha conta bancária e pare de falar bobagem!
Respiro fundo para não mandar o sujeito para o inferno. Ainda preciso dele.
- Você quer declarar alguma coisa? Podia parar de criticar e contar logo sua história!
- Quero que vá embora! Que me deixe!
É claro que eu não vou. Acomodo-me na cadeira de balanço, ao lado da cama:
“ Abriu a gaveta da mesinha e sacou o revólver. A arma com que pretendia eliminar seu antigo sócio, o homem que o desmoralizara diante dos clientes com o caso do banco estadual. Colocou as balas, uma a uma, lambendo-lhes as bordas, numa espécie de ritual...”
Silêncio. O velho não fala nada, não se incomoda com o novo rumo que sua participação em minha história tinha ganhado. Continuo:
“Sim, ele mataria aquele desgraçado que roubara dele tanto dinheiro e... a mulher.”
- Lá vem você de novo com essa história de traição. Já falei para não mexer com a minha senhora (que descanse em paz)!
- Ah, afetei-lhe os brios? Então corre sangue nessas veias de celulose?
- Melhor ter celulose na veia do que celulite na...
- Espere aí, camarada, o nível dessa conversa tá ficando baixo demais! Me respeita que eu posso acabar com você!
- É, e vai fazer o quê? Vai me deletar? E ficar sem sua historieta? Ah, você é uma grande cobarde, isso sim. E esse beicinho, o que é? Vai chorar?
Claro que não, foi uma lágrima só, um desconforto ocular. A fumaça do cachimbo, no quarto todo, começa a irritar meus olhos. Levanto da cadeira e, tateando os móveis, encontro-o sentado diante da máquina de escrever:
- Querida, enquanto você fica aí sofrendo para fazer duas páginas, estou terminando meu romance de 40 capítulos.
- Você? Então virou escritor? Mas eu pensei...
- Pensou nada. Ficou aí tentando me botar triste, traído, enroscado. Eu estou bem demais, saúde invejável, altíssimo nível de produtividade. Só preciso que você vá embora para eu concluir o capítulo final. Agora ande, saia daqui, porque ALGUÉM precisa trabalhar!
Abro a gaveta da escrivaninha e lá estão umas duzentas páginas datilografadas. Tanto texto me deixou com um buraco no estômago. Continuo de onde tinha parado:
“Então olhou de novo para o revólver, carregadinho. Pensou na mulher que o TRAÍRA (sim, ela o tinha traído), e no sócio que o roubara, e na casa hipotecada. Inconformado com o rumo que sua vida tinha tomado, de súbito colocou o cano da arma na boca e atirou.
Ah, que pena! Ele queria tanto ser escritor...”
E aquilo que caiu no chão, afinal, era mesmo um cachimbo? Bom, seja lá como for, escrevo o e-mail: “Caros amigos, vejo vocês amanhã em nosso encontro. Segue o meu texto...”


