quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Pelos vazios da boca


 

            Estava uma manhã linda de inverno. O sol entrava pela janela da cozinha, iluminando a toalha xadrez sobre a mesa. Nestor conferiu o relógio: tinha quinze minutos para fazer o desjejum. Comeria o iogurte, a granola, o papaia, os ovos com bacon e as torradas. Comeria, com muito prazer, se tivesse tudo isso. Não era o caso, não naquele dia, mas ele acreditava, em breve tudo estaria melhor...

Mastigou lentamente o pão, intercalando com café preto os espaços vazios na boca, entre uma mordida e outra.  “Hoje vai dar, tem que dar”, firmava o pensamento, apertando na mão esquerda um pequeno talismã indiano,  única herança deixada pelo pai. Estava saindo para mais uma entrevista de trabalho, agora para uma vaga de representante comercial em um laboratório médico. Não podia mais escolher e rezava para que este finalmente desse certo.

No elevador, encontrou um vizinho, colega de empresa, promovido a coordenador na mesma época em que ele se tornara gerente de negócios. Cumprimentos com ares de descontração, tá trabalhando onde agora?, uns projetos pessoais, em andamento!, ah, que bom, um abraço! O suor escorrendo pela testa, o nervosismo do térreo que não chegava nunca. Teria o outro percebido a camisa amassada? O desbotado do seu paletó? Ah, bons tempos de ternos impecáveis saídos da tinturaria...

Com a mudança da superintendência, a estrutura organizacional da empresa ruiu e os cortes foram inevitáveis. Nestor recebeu a demissão com desdém: não imaginava que iria demorar tanto para conseguir outro trabalho... Ele tinha um cargo, era gerente, não podia aceitar qualquer coisa! Como iria manter o padrão de vida que tinha conquistado?

O fato é que ele vivia bem, gastava muito e, com a separação, viu o carro, o filho e suas últimas economias serem levados pela ex-mulher. Com o passar dos meses, as contas foram vencendo, o limite do cartão estourou, o cheque especial foi cortado e, quando se deu conta, estava ali, naquela manhã, com o exato dinheiro no bolso para pagar a condução de ida até a tal entrevista de emprego. Se desse certo, podia pedir um adiantamento, deveria haver uma ajuda de custo.

Ajustou o passo elegante ao ritmo seguro de quem sabe para onde vai e seguiu até o ponto de ônibus.

...

Teste, dinâmica, entrevista com um. Você foi muito bem, só depende de mais uma entrevista. Acho que vai dar certo, rapaz. Volte amanhã para a última entrevista.

Volte amanhã. Volte amanhã. Volte... Como? Aliás, ele nem tinha como voltar para casa! Quinze quilômetros, dezesseis talvez... De sapato, gravata...

Pegou um ônibus, estava bem arrumado: Ai, que azar, acho que esqueci minha carteira! Desceu pela frente. A fraude tinha colado: Hoje colou, mas e amanhã?

Rapidamente espantava esse pensamento negativo. Amanhã seria outro dia. Estaria empregado, com certeza. Ergueu novamente a cabeça e realinhou o passo para percorrer o trajeto que faltava para chegar a casa.

Quando atravessava o viaduto, no começo da noite, percebeu uma fila de gente maltrapilha. Indigentes, moradores de rua, moleques descalços, todos aguardando sua vez de pegar a sopa servida pelos voluntários de algum grupo de amparo social. Era ali, em público, em pé, que os sem nada matavam a fome. O cheiro da mandioquinha invadiu suas narinas e despertou o dragão alojado no estômago, sedado à força, durante todo aquele dia. A lembrança do café matinal percorreu sua saliva em busca de algum sabor: gosto de fome. Era só o que podia sentir. A fome, bicho feroz devorando a compostura, instalou-se. Os pés, obedientes à nova dona,  cravaram no solo, em meio ao rebuliço de gente.

Moço, tá na fila? Ele não respondeu, porque a cabeça ainda pertencia ao lado racional, encabulado com aquela exposição. Não olhou para os lados. Não piscou. Foi se deixando arrastar, seguindo o fluxo, fingindo estátua. Se eu não vejo o outro, o outro não me vê.

Agarrou com as duas mãos a garrafa de refrigerante, cortada ao meio, que servia de cumbuca para a sopa. Vai querer pão? Quer pão, seu Nestor?

Ergueu os olhos, fervendo na vergonha, para a voluntária que o conhecia. Dona Judite era professora do filho.

- É pro Gabriel, sabe! Viu e ficou falando... A senhora me desculpe, eu ficar aqui, não sei se pode. É que o menino, criança, né...   Vou levar pra ele, a mãe pediu que ele não tá dormindo...

- Tudo bem, eu entendo, ele vai gostar – pactuou a professora, mesmo sabendo que o menino, que nem morava com o pai, não tinha ido à aula por estar viajando com a mãe –, mas não vai querer pão?

- Bom, acho que levo também, vai que ele fique com vontade... Obrigado, até logo!

Deu cinco passos rápidos e, sem olhar para trás, enfiou o pão do dia seguinte no bolso do paletó.  Depois se misturou na multidão de esfarrapados e virou goela abaixo a sopa quente da garrafa de guaraná.  Amanhã, tenho certeza, amanhã vai ser melhor...

 

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