Depois de quase dois anos fora do país, tinha voltado para resolver o divórcio. Juntos, viveram tão separados... Onde haviam errado?
Sozinha com a secretária, na recepção, aguardava a advogada chamar.
- Minha irmã também se chama Rebeca, dizia a jovem, conferindo a documentação.
- É mesmo? Foi escolha da minha mãe, significa “a que une”, sabia?
A que une estava agora se separando. A mãe, se fosse viva, não entenderia. Foi a primeira a ensinar a arte silenciosa da resistência, acolhendo a necessidade de cada um, unindo todos, erguendo pontes para que outros sigam.
A moça sorriu com simpatia:
- Vocês têm filhos?
- Só um.
Queria que perguntasse do filho, mas a outra apenas comentou:
- Um já dá tanto trabalho, não é?
Ela respirou fundo e sorriu. Era complicado... Aos vinte e cinco anos, a alegria de ser mãe. Aos vinte seis, a primeira cirurgia do filho e o abandono do trabalho. Aos vinte e nove, a coragem de sair do país, apenas com o menino, para um longo tratamento no exterior. O marido, no Brasil, trabalhava duro para bancar esse período. Na volta, as coisas já estavam diferentes, amor tinha virado respeito e contrato: ele provinha, ela cuidava. Ao seu lado, depois de mais uma cirurgia, a cria aos poucos se recuperou e virou um rapaz às vezes manso, às vezes temperamental, como um gato.
- Sim. E quando crescem a coisa fica pior!
Por trás do clichê havia outra fase difícil. O jovem Tobias um dia acordou leão: não queria mais aquela faculdade, aquele trabalho, não queria mais viver. Depois da fase crítica, medicado, foi aprovado num estágio em Goiás, onde também terminaria o curso. Aceitou, sem resistência, que a mãe fosse com ele, mas só até se instalar e poder deixar os antidepressivos. Mais cinco meses com a vida suspensa, atrás dele. O pai ficou, tinha os negócios para cuidar...
- A senhora trabalha? Anota aqui na ficha um contato comercial, por favor.
O meio da vida, para a mulher, é um período delicado. Tempo de olhar para dentro, realinhar o foco. O filho finalmente parecia estável, independente. O marido, acostumado ao desespero do prover, não percebia que a vida estava mais leve. Enfurnado no trabalho, não conseguia mais ser parte de um casal. Ambos sentiam um incômodo que não sabiam nomear.
Estava ociosa, devia ser isso. Quis voltar a trabalhar, mas tinha pouca experiência e muita idade para o mercado competitivo. A saída era tentar um concurso público. Comprou calhamaços de apostilas e passou a devorá-las no café da manhã, na sobremesa, no lanche da tarde, na pipoca sem filme. Deu certo. A rotina era burocrática, mas ao menos fazia algo útil e tinha autonomia financeira.
Foi então que Laura chegou, trazendo Tobias de volta a São Paulo, com sorrisos nunca vistos antes no rosto daquele menino-homem. Anel, festa, casa e... Juliana.
- Tenho no celular, deixa eu ver... Pronto. Ah, veja aqui, esta é a foto da minha netinha!
Juliana era o nome da nova fase da vida de Rebeca. Em forma de neta, essa criaturinha a fez rearticular gerações, acolher um galho novo na árvore genealógica. Ela passou a ser as noites de terça e quinta, alguns sábados e todos os domingos, inclusive o de Natal, quando Tobias informou que mudariam para a Noruega. Rebeca ficou muda e odiou o filho por alguns segundos, uma sensação tão nova que chegou a assustar. Não imaginava mais a vida sem aquela menininha por perto.
O marido também silenciou e consentiu com a cabeça. Sem se olharem, ele leu a respiração da mulher e a acalmou, encaixando os dedos entre os dela. Antes de dormir, apertou-a nos braços: “Eles vão precisar de você. Se quiser, pode ir, eu fico e cuido das coisas por aqui.” De alguma forma, essa provável nova partida já doía bem menos do que antes.
- Que menina linda! Mas isso não é no Brasil, é?
O filho, tão acostumado com a mãe sempre por perto... A esposa também aprovou a ideia, seria ótimo ter alguém para cuidar da filha e da casa, enquanto eles se dedicavam a suas carreiras bem-sucedidas. Rebeca achou normal mais uma vez se afastar das suas coisas, do trabalho, de casa, do marido. Pediu licença do cargo, renovou passaporte, preparou documentação e escolheu, de novo, percorrer um caminho que outro tinha escolhido.
- Não, ela vive bem longe daqui. Eu também morava lá.
- A senhora vai voltar para esse lugar?
Numa dessas rápidas vindas ao Brasil, olhou seu homem envelhecido e triste. Só então percebeu que ela também estava envelhecida e triste. Ainda se amavam, de alguma forma. Por décadas tinham cumprido um compromisso, mas sabiam que não dava mais. Onde haviam errado? As articulações esticadas, desgastadas, já não uniam mais nada. Era hora de podar os galhos para fortalecer a raiz, de romperem as amarras com o outro para salvarem a si mesmos.
- Não, para lá não.
Já tinha ficado fora tempo demais. O filho, a neta, o marido, todos passaram pela ponte e precisavam seguir. A que acolhe, dizia a mãe. Era hora de acolher a si mesma, de também atravessar a ponte, virar estrada.
A advogada abriu a porta e veio buscar a cliente com um abraço:
- Venha comigo!
O futuro dava um pouco de medo. E de tesão: iria alugar um apartamento na praia e comprar uma bicicleta. Quem sabe, aprenderia a surfar e a tocar bateria e a dançar tango e...
