sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Rildo

 


Oito anos. Chico partiu na roda viva como parte da bagagem. “Você pode ficar com tudo, mas o gato eu levo.” Pode levar. Despedidas são coisas estranhas, doídas, que ficam piores quando se negocia liquidificador. Andava lendo uns livros de empoderamento, mesmo. Pode levar o que quiser.

Talvez fosse bom, precisava experimentar viver só nesse lugar que era ela mesma. Esse lugar tinha um nome: Rita. Ocupá-lo exigiria habilidades que ela nem desconfiava possuir. Por isso, primeiro veio o silêncio dos mundos, que precisou ser preenchido com infindáveis séries de tevê, estudo de japonês madrugada adentro e muito, mas muito chocolate. Três meses.

Um dia, quando a luz do sol destacou a mancha de copo na mesa da sala, ela começou a ver. Viu a mancha e desconfiou de todo o resto. Detetive da própria casa, passou a olhar as paredes, as almofadas, a dobradiça da porta. Abriu janelas, comprou cama nova, mudou a decoração, colocou flores no vaso. Seis meses.

Onze meses. Acordou sem se preocupar com a hora. Era sábado. Esticou-se para alongar os braços e a coluna, como a professora de pilates tinha indicado. Já sentia o abdômen mais firme, a respiração mais equilibrada. Estava feliz em ser, ela mesma, sua melhor companhia. Mas, entre um gole e outro de café, acabou assumindo que sentia falta de amar outro ser. Já estaria pronta para se arriscar de novo? Não, não, bobagem... E saiu cantando Belchior: “Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro”.

“Que bom! Até sexta, Rita”. A terapeuta pareceu boa, ia continuar. É que um dia desses um outro raio de sol bateu em algum lugar entre o pulmão e o coração. Tinha uma música estranha saindo dali, parecia um bolero, e ela quis investigar. Com o tempo também passou a ouvir um rock pesado e até um sambinha. Curioso isso, descobrir suas melodias internas. Um ano e qualquer coisa.

Entrou na rodovia e viu o cão atordoado, correndo de um lado ao outro, desvia de um, corre, volta, para, corre. Rita parou de respirar, não queria ver, não podia. Ele escapou, voltou para o acostamento. Ela jogou o carro para o canto da pista, ligou o pisca-alerta e saltou na direção do animal. Ele correu de novo, voltou para a pista, tinha medo dela, um caminhão buzinou, tirando uma fina.

Então ela se agachou no recuo da pista e começou a chorar a ira dos inconformados. Tanto empenho para superar as perdas, sair do fundo do poço, para agora ver um cãozinho ser atropelado na sua frente?  Um carro reduziu a velocidade, fez sinal para os de trás, e o cão finalmente conseguiu voltar para o acostamento. De rabo e orelhas baixas, veio se aproximando daquela humana fragilizada e deitou-se ao lado dela. Ela, ainda soluçando, esticou de leve a mão no chão, com a palma para cima, para ele cheirar. Depois acariciou uma patinha e a cabeça e o corpo. Ele lambeu seu braço. Foi assim que se comprometeram, nesse primeiro encontro.

Quando o carro passou pelo pedágio, ouviam Hyldon: “Jogue suas mãos para o céu e agradeça se acaso tiver alguém que você gostaria que estivesse sempre com você...”. O cão latiu e ela respondeu: “Sim, Rildo, claro que eu também te aceito”.

Dois anos. Cinco anos. Dez anos...

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Medo de Fantasma

 

— Vem, Gabriel, vai começar!

Toda sexta-feira, meu pai repetia o ritual: estourava um balde de pipoca, arrumava as duas poltronas, apagava as luzes e subia o volume da tevê. Minha mãe fazia plantão no hospital e nós ficávamos sozinhos. Ele escolhia os filmes, alegando ter muitos clássicos pra me mostrar. Alguns eram legais mesmo, mas eu também aguentava muitas chatices, só para agradar meu pai e curtir esse momento ao seu lado.

— Tô indo! O que vai ser hoje? – me acomodei, arrumando o guaraná no meu canto da mesinha.

 Terror, quer dizer, um de medinho...  Tudo bem?

 ...

A palavra fugiu e a saliva, no nada da voz, engrossou na garganta. Caramba! Odeio filme de terror, todo mundo sabe disso! Estaria me testando?  Ele disse medinho, mas...

Diante do meu silêncio, o filme começou.

 

Nora e Paul estavam noivos, mas ela começou a se envolver em um romance secreto com Julian. Até aí, tudo bem. Como pipoca...  Julian, na verdade, tinha se aproximado de Nora para se apossar do dinheiro dela. Tô até gostando da história! A Nora é uma gata... Só que Paul desconfia da traição e, após seguir Julian, descobre a trama. Eles começam uma briga e o rival, forjando um acidente, mata o noivo traído.. Parari, parará e... hora de enterrar o defunto.

O filme já está com mais de meia hora e, eu sei, a moleza vai acabar. Noite, cemitério e uma capela sombria. Não! É uma cripta, onde ele vai ser enterrado! De repente Nora está só na cripta e começa a ouvir minúsculos ruídos. O som aumenta e a câmera roda lentamente pelas paredes, destacando as fotos dos mortos ali instalados. A cena corta para os olhos dela, apreensivos. Cubro a cabeça para não ver o que já pressinto.

O som, a música, a pausa. Não aguento! O filme que passa atrás da coberta é pior do que qualquer outro visto de verdade. Olho. Não há mais nada, a cena já mudou para outro dia.

             Pai, você colocou o relógio para despertar? – pergunto qualquer coisa, só para aliviar o clima, então percebo que ele está dormindo. Sinto um frio na espinha por estar só naquela situação, mas a sequência na tela já está mais suave, com a quase viúva se despedindo do amante e entrando em casa.

            Ah, que alívio, dá pra parar esse filme... Descubro os braços para pegar o controle remoto e quando me curvo sobre a mesinha, a cena me joga para trás:

            Nora, pensando no beijo que ganhara de Julian ao sair do carro, entra no quarto e vê Paul no espelho: a sonoplastia, é claro, arrebenta o peito. Com cara de pânico, agarro meu pai.

            — O que foi, moleque? Que desespero! Viu fantasma?

             Você dormiu. Não quero mais ficar vendo... Tá chato!

            Na semana seguinte, como ele não quis ver Os Vingadores, inventei uma dor de cabeça e fugi (ufa!) de Psicose. Era hora de rever os preços de certos prazeres...

Fui mais cedo para o quarto e, pelo fone de ouvido, enganchei meus sonhos nas promessas da Shakira: Pideme el sol y te lo traigo ya!


segunda-feira, 7 de junho de 2021

Angélica


         Cresci cheia de mimos e zelos de quatro fortalezas que ocupavam a minha casa: minha mãe, o marido dela, minhas duas irmãs. Eu era o contraste, por isso nunca entendi qual seria realmente minha ligação com aquela família. Mesmo adulta, ainda era comum ver os outros cuidando dos meus passos. Foi assim até aquela manhã de fevereiro.

 Zara deslizava os dedos habilidosos pelos meus fios, trançando um penteado.

- Ai! Doeu!!

- Xiu! Não mexe. É pra ficar bonita! Não quer?

Queria. Queria mesmo ficar bonita feito ela. Grande, preta, linda. Aquele cabelo bombril que ela, num puxa e estica, transformava em estilo total. Ela, atriz por formação, modelo de revista, era minha irmã mais velha, do primeiro casamento da minha mãe.

- Pronto, Ji. Tá linda pra ir fazer sua matrícula na faculdade! A Ondina vai te levar?

Ondina era minha outra irmã, filha do terceiro casamento de mamãe. Com 19 anos, 1,85m de altura, músculos de atleta (era central no vôlei e pivô no basquete), Ondina já cursava o segundo ano de Engenharia numa faculdade federal.

- Vai sim, ela sabe que eu ainda tenho medo de dirigir nas marginais – confirmei, envergonhada de tantos limites. Eu era ruim de volante, de escola, de namorado, de esporte, de música. E agora ia encarar uma faculdade paga, num curso sem prestígio, tão diferente delas...

Zara me abraçou carinhosa:  ia dar tudo certo, o curso seria bacana e essa história de faculdade pública ou particular, tudo bobagem, eu ia ver. Que eu não me importasse da Ondina ter entrado antes, uma apressadinha, tudo tinha seu tempo... Naqueles braços, eu me sentia com 10 anos e não com os 23 que a certidão de nascimento denunciava.

É mais fácil falar de mim falando delas: Ondina e Zara, meio irmãs, meio primas, eram muito parecidas (na estatura, nos traços faciais, na inteligência...). Eu destoava em tudo.

Quando nasci, minha mãe olhou aquela criaturinha rosada, de cabelos esbranquiçados e dois laguinhos azuis no meio do rosto. O nome escolhido, Angélica, tão óbvio, um clichê. Num carinho que nunca me caiu bem, me chamava de “anjinho” (que depois virou jinho e finalmente Ji). Não queria ser anjo e sim uma pantera negra ou uma loba, como o resto da matilha.

            Segui rumo à Pedagogia, mais acreditando que seria fácil do que por aptidão. Além disso, aquele era o curso ideal para eu ganhar mais segurança, afinal seria bem maior e mais forte que os alunos da educação infantil! Mas isso só depois de formada, e eu ainda ia começar... Conseguiria? Abandonei meus pensamentos para ver minha irmã dirigir: sua habilidade era uma provocação aos meus tantos medos.

Ondina, no trânsito, basquete nas marginais, fintando o primeiro, driblando o segundo. Faz um corta luz no caminhão e gira entre as motos para achar o ângulo do arremesso. Um show de pilotagem. Mas o celular tocou e ela, um décimo de segundo com olhos na bolsa, não percebeu o adversário roubando-lhe a bola: capotamos três vezes e paramos sobre as grades de proteção, as rodas da frente quase tocando o rio.

            Um golpe de ar invadiu minhas narinas, chacoalhando meu cérebro, que voltou a trabalhar. O carro, bola enroscada entre a bandeja e o aro. Eu, rezando pra não cair... Conferi que, em mim, aparentemente tudo funcionava, apesar do corte no braço esquerdo. O sangue de Ondina tingia o ferro retorcido. Estaria viva? Sim, apesar de quase inconsciente, ela às vezes gemia. Não dava para esperar ajuda, poderia ser tarde...

Ela precisava de mim, da minha atitude, então destravei os cintos de segurança, o meu e o dela. Com o balançar do seu corpo, o carro desceu mais um pouco, quase rompendo de vez a grade que o sustentava. Abri a porta e em segundos estava ao lado dela, arrancando-a do carro, um pouco pelos braços, um pouco pelos cabelos, grunhindo uma ancestralidade instintiva que me dava força para proteger essa outra vida.  

        Nosso sangue, na beira da marginal, misturava-se. Por dentro, éramos ainda mais irmãs. Finalmente entendi que, na pele de anjo, uma poderosa fera também vivia em mim.         

 
     

Orelha e o Cão Tinhoso, um encontro infeliz

  Orelha e o Cão Tinhoso, um encontro infeliz Sueli de Britto Salles           Janeiro de 2026. O mês termina transbordando comoção so...