segunda-feira, 23 de novembro de 2020

E se eu te decepcionar?


         O bolo amanhecido, mastigado lentamente, avolumava-se em minha boca, alongando aos extremos o silêncio à mesa. Meus olhos se escondiam no livro, em tabelas periódicas, desculpa de prova para fugir do iminente inquérito da minha mãe. Que barriga é essa? – questionariam seus olhos, cravados nos meus, quando os encontrassem. Por isso os meus fugiam...

Enfiei o dedo no copo para tirar a nata. O leite começava a me enjoar, como quase tudo, nos últimos tempos.  A barriga mexeu-se um pouco. Sim, havia ali um bebê, resultado da minha primeira transa. Aconteceu num carnaval com o cara mais lindo da noite, Fernando, um goleiro do interior que estava fazendo teste pra jogar na Portuguesa. Beijos no meio do salão, amassos no carro.  Pedi pra parar, mas ao ver seu riso perplexo diante da minha virgindade, cedi, morta de vergonha por ser tão inexperiente. Depois ele sumiu, como quem se recolhe para a quaresma antes mesmo da quarta-feira.

- Toma o leite, Eduarda! Para com essa cara de nojo! – o pai ralhava, cada vez mais impaciente com meus momentos de divagação – Vai querer carona pra escola? Já tô de saída...

- Não, pai, hoje vou mais tarde só pra fazer prova – escorreguei, evitando dar chance a ele de perguntar alguma coisa. – Vou de ônibus. Valeu...

Quando os enjoos começaram e a menstruação sumiu, soube que aquele ato mudaria minha vida para sempre. Mas o que aconteceria comigo? Meu pai me mataria? Me botaria na rua? Pânico dividido apenas com a Ju, minha melhor amiga. Foi com a ajuda dela que consegui encontrar Fernando de novo:

- O que quer de mim? Quer dinheiro pra tirar o bebê? Não posso assumir, foi só um lance. Nem sei se o filho é meu mesmo...

Não, aqueles olhos não tinham mais a sedução e a delicadeza que um dia me tiraram para dançar. Pelo menos era como eu me lembrava dele até aquele momento. Agora, nas poucas vezes em que me fitaram, camuflaram-se sob uma bruma de medo e desconfiança. A conversa, em pé, no meio da calçada, não durou vinte minutos.

Para ele era simples assim. Gozou e foi embora. Eu que resolvesse, que não havia nós. Meses mais tarde, quando meu pai descobrisse tudo, por pouco o aprendiz de goleiro não iria parar na cadeia por sedução de menor. Depois daquele dia, ainda conversaríamos algumas vezes, mas apenas para eu me convencer do quanto ele era um tremendo idiota.

 

 Os meses de calor se foram e as roupas de frio camuflaram os novos contornos do meu corpo. Estávamos em junho, numa quinta-feira, a manhã seguinte ao meu aniversário de dezessete anos, comemorado discretamente com bolo e guaraná durante o intervalo da novela.  Mal o pai saiu, minha mãe sentou-se à mesa comigo, segurando um café fumegante.

- Duda, o que está acontecendo? – ela devia realmente estar nervosa, pois fazia anos que ninguém me chamava por esse apelido – Você não quer me contar?

Não, é claro que eu não queria contar nada. Estava apavorada, vivendo dias intermináveis, no silêncio secreto da barriga que crescia, do peito que inchava, do quadril que alargava. Rezava todo dia, rezava para algum santo me evaporar da face da Terra. Ou fazer outro milagre qualquer, que apagasse aquele carnaval. Depois me arrependia um pouco, não podia mais voltar atrás, não podia ficar sem o meu bebê. Durante a noite os pesadelos torciam meus pés em câimbras insuportáveis, uma saída do universo para eu poder gritar meus medos sem precisar nomear a dor.

- Você nem tomou café direito. O que está acontecendo? – insistiu.

- Nada não, mãe. É essa prova de Química...

          Quando ameacei me levantar, ela me segurou pelo braço e tocou minha barriga. Senti um frio percorrer cada vértebra da coluna e o chão abrir-se sob os meus pés. Sentei novamente já sem saliva, sem lágrima, sem cor. O queixo grudado no pescoço, cordeiro pronto para o abate. Minha mãe, toda dificuldade para tratar de assunto desse tipo, não conseguiu dizer palavra sobre sexo.

- Quando você voltar da escola, vamos ao médico. Marquei um horário.

- Por quê? Você não está bem, mãe? – tentei, num ato de desespero, ainda desconversar.

Então o momento fatídico chegou: ocupada com essa pergunta idiota, baixei a guarda e, sem perceber, já tinha deixado meu olhar destrancado.  Ela não perdeu tempo e, encarando-me, invadiu meus segredos, vasculhando tudo no fundo dos meus olhos. No silêncio desse momento, senti ser revelado até o que nem eu mesma sabia: como tinha medo de decepcionar as pessoas, de perder o amor delas. Foi assim com Fernando. Era assim com ela, com meu pai.

- Faz tempo que te observo, faz tempo que espero você falar comigo. Também não sabia o que fazer, seu pai tem pressionado, tive medo da reação dele, mas não tenho mais. Não posso mais deixar você assim...

O que vai acontecer? Ensaiei por vezes pronunciar essa pergunta, mas não saía palavra. Acho que não precisava, ela de repente podia ler meus pensamentos.

- Vou cuidar de você. E do bebê.  O resto, todo o resto, depois a gente resolve...

E me abraçou, meio sem jeito, pra me proteger contra tudo que possivelmente despencaria sobre nós. Nesse calorzinho torto, adormeci meus medos.

O inverno mais frio da minha vida ainda reservaria fortes geadas, mas eu não estava mais sozinha. Mariana nasceu em novembro e floriu nossas vidas. Primavera: que bom! 


2 comentários:

  1. Su, belo texto... medo, decepção, surpresa e uma avalanche de emoções, que nos toca e nos faz amadurecer... Parabéns e gratidão!!

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