A campainha começou a tocar, mas ela não foi atender. Aquele livro parecia estar grudado nos dedos. Algo a hipnotizava. As garotas ficariam juntas, afinal? Torcia por elas, Leda e Amélia, a cada novo capítulo. Era sempre assim, personagens viravam amigos, parte da sua vida...
Aos 10 anos, encontrou Harry Potter, o garoto que morava no armário embaixo das escadas dos tios. Foram parceiros por anos. Depois vieram outros companheiros de papel em aventuras épicas, espaciais e japonesas, um leque de amizades literárias muito variado.
A campainha ainda toca... Leda e Amélia estão num barzinho, depois de uma semana de flerte na faculdade. Conversam sobre viagens...
O mundo da ficção a engoliu, de fora pra dentro, de dentro pra fora. Aos 13 também criava histórias, só que em desenhos. As mãos foram revelando essa magia e quase nem a obedeciam. Tudo virava personagem.
Se conseguisse, iria até a porta e pararia de vez com a campainha... Leda coloca o copo na mesa e pega a mão gelada de Amélia. “Está com frio?”
Mas foi numa oficina literária que a ficção e o mundo real viveram um breve casamento. Num trabalho sobre O Conto da Aia, as questões feministas ganharam luzes, principalmente pelas palavras de Rina, uma menina que, muito à frente dos colegas do grupo, era um convite à vida plena. Linda, amava sem regras, sem gênero, sem preconceitos. Era livre entre um amor e outro, mas, quando amava, aprisionava-se àqueles olhos amados e sugava esse sentimento até a última gota. Quando terminaram o namoro, Rina ficou bem, mas ela... Por isso, jurou, não largaria mais o colo quentinho da ficção.
“Já vou!”, grita do quarto e a campainha finalmente para. Mas ela não vai. Amélia foi até o ouvido de Leda e sussurrou estar com medo, sem, no entanto, largar a mão da outra.
Som da chave girando e a porta se abre. Vozes vão invadindo a casa como os zumbis da tevê. Sim, agora ela vivia a fase das séries.
Passos se aproximam, as vozes silenciam, toc-toc na porta: “filha, tem visita pra você, posso abrir?”
Em pé, junto à porta, caramelos nos olhos: “Estava passando aqui perto e quis te ver, deu saudades.”
Rina...
A vida real, novamente. Será que agora era pra valer? Leda e Amélia desabam daquelas mãos desejosas de esperança, nem deu para marcar a página.

Que sensibilidade ao relatar questão tão importante...o amor...um amor fora do tal estabelecido pela sociedade e tão bem estabelecido entre as/os envolvidas/os. Li e reli... parece uma cena de animação juvenil. AMEI!!!
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