Quando o ônibus chegou a Paraty, ela já estava me esperando: vestida de dor e desespero, desmanchou-se nos meus braços, finalmente um espaço de segurança.
- Você o encontrou, então... Como ele está?
No outro ônibus, a caminho de Trindade, ela foi despejando as histórias, de como Miguel tinha deixado a casa dos pais para fazer uma viagem com amigos. De uma semana passou para duas, para três, agora cinco. Na última ligação para casa, disse que não voltaria, tinha achado seu destino.
- Dezessete anos, ele só tem dezessete anos! Minha mãe parece não entender, disse que o Miguel é assim, livre...
- Ele falou com você? O que disse?
- Você vai ver, Ju, ele é carinhoso comigo, mas não me ouve, disse que estou nervosa à toa, que estou ficando velha. Eu? Com vinte e dois? Ter juízo é ser velha?
Não sabia bem o que pensar. Difícil entender as lógicas da família alheia, mas Carolina era minha amiga há anos, ela estava precisando de ajuda e eu iria tentar fazer algo.
Descemos do ônibus na estrada e logo uma caminhonete já meio cheia parou ao nosso pedido de carona. Fiquei um pouco quieta, perdida na conversa do grupo, e pude me concentrar no caminho. No meio do mato, montanha acima, montanha abaixo, aquela vilinha escondida entre pedras e as praias de cor deslumbrante. Esse menino escolheu bem onde se enfiar!
Mais uma trilha pela mata e finalmente chegamos à praia do camping. Miguel me recebeu com um abraço, feliz em me ver. “Aqui é um paraíso, Ju, você vai gostar”. E saiu pela praia me puxando pela mão, “vou te levar na cachoeira...”, mas eu tive que fazê-lo parar.
- Calma, Miguel, estou cansada, com a mochila nas costas, me dá um tempinho!
Eu não sabia ainda, mas aquela era a única oportunidade que eu teria de conversar com Miguel, de tentar convencê-lo a voltar com a gente. Desperdicei. Provavelmente não funcionaria...
Ele me olhou com suavidade e, feito criança, virou as costas e foi procurar outra companhia para suas aventuras.
- Ele parece bem, Carol. Não está?
- Não, Ju, essa agitação é efeito da droga. Daqui a pouco ele vai cair feito aqueles – e apontou para dois rapazes que pareciam desmaiados na areia, alheios ao sol intenso e aos borrachudos que não paravam de picar.
Isso realmente aconteceu, pouco tempo depois. Procuramos falar com alguém lúcido por ali, mas todos nos olhavam com espanto, sem entender nossa preocupação. O que poderíamos fazer? Estávamos num mundo paralelo, livre das convenções. Quem seria a autoridade ali?
- Carol, nós vamos acampar também? Eu não tenho barraca...
- Não, Ju. Não vai adiantar... Já conversei, mostrei a carta que o pai mandou pra ele, tentei até ameaçar, mas nada funcionou. Esses dias me virei como deu, não tinha forças para tomar essa decisão. Precisava que mais alguém visse como ele está.
Então entendi por que ela me chamara: eu, testemunha de suas ações, seria álibi para sua própria consciência. Ela não aguentava mais, precisava partir ou acabaria sendo sugada para aquele buraco.
À noite, alguém veio avisar, sairia um jipe para a cidade, se alguém precisasse de carona. Atravessamos as pedras guiadas por uns doidos com lanternas de garrafa pet. Depois, a sós, caminhamos pela estradinha que levava à rua central. O céu estava escuro, não havia nenhum tipo de luz, mas no meio do caminho, algo inacreditável aconteceu: vagalumes começaram a piscar naqueles campos, primeiro alguns, depois mais e mais e mais. Quando olhamos ao redor, estávamos no meio de uma constelação de luzes verdes piscantes. Era o negro da noite, que igualava céu e terra, pontilhado por estrelas verdes, como se estivéssemos dentro de um caldeirão de bruxa, borbulhando magia, filtrando o limite entre dois mundos.
Nunca mais vi algo sequer parecido com aquilo. Talvez essa experiência tenha servido para nos mostrar que as escolhas de Miguel fossem movidas por razões além das drogas. Havia algo inexplicável, um chamado da natureza.
Acho que Carol pode, ali, libertar-se do peso da responsabilidade que insistia em carregar. Amava aquele irmão e tinha tentado. No futuro, faria o possível para entender as escolhas daquele menino-ave que estava, naquela praia, iniciando sua aventura por caminhos tão distantes do que ela imaginava. Seria hippie no Sudeste, depois índio na Amazônia. Um dia Miguel voou para outras dimensões e nunca mais voltou.
Carolina, esses dias, me mandou uma foto: “Se quiser, use no próximo texto”. Ah, essas asas...

Lindo texto! Narrativa leve e que nos convida a olhar para lugares e viagens que passamos! 😘
ResponderExcluirLindo texto! Narrativa leve e que nos convida a olhar para lugares e viagens que passamos! 😘
ResponderExcluirLindo texto! Narrativa leve e que nos convida a olhar para lugares e viagens que passamos! 😘
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