quinta-feira, 29 de abril de 2021

Setenta por cento

 

Eu estava lá embaixo, fui ver o gatinho. Está cuidando de outro? Não, a Marta cuida desse, fui só ver um pouco, subi agora, tá um frio aqui, daqui a pouco vou pro banho, esquentar, comer. Ah, quer ir tomar banho antes, depois a gente se fala? Não, não, fica tranquila, aqui já tá legal.

Fui resolver pendências do carro, descobri que não paguei o IPVA do ano passado. Nossa! É, daí passei no shopping, comprei um chocolate pra vocês, pra comemorarem o aniversário de namoro. Ah, que fofa. Um 70% cacau pra não estragar a sua dieta. 70% é bom, acho que a gente é amiga assim, 70%, que de vez em quando tem 30 pra gente se estressar, não é? Caramba, é mesmo, lembra o dia que fui chorar no banheiro? Você pegou pesado, Desculpa!, não, é importante, você me chacoalha às vezes, depois passa, é bom.

e acabei dormindo à tarde. Hoje estava assim, sem nada importante, acho que nada é mesmo importante. Eu fiquei pela rua. Não tinha nada, a tevê, livros, podcasts, tenho ouvido muita coisa só que hoje... Pensei em você também esses dias, a gente não se falou. Você já leu o capítulo 14, sobre secularismo? Tô lendo outro, um da Lygia, mas depois.

porque ela me irrita, fiquei muito brava na segunda, ela desistiu, terminou a sessão antes. Preciso falar de mim, como ela quer tirar conclusões sobre a minha mãe? Processo complicado, a gente nunca sabe se elas fazem isso por técnica ou por falta dela. A minha me deixou na mão, lembra? Eu quase morri, fiquei mal, queria tanto conversar com ela, entender o que era aquilo. Não rolou, era fim de ano, eu me recuperei, tinha comprado um panetone, queria falar com ela, ela não... Depois, quando voltei ela disse: você está bem, não está? Eu estou aqui agora, ela estava lá, eu voltei, mas algo tinha quebrado e naquele ano eu parei. Ela pegou um dicionário, vamos ver o que essa palavra significa, e leu tudo, eu não aguento, eu odeio essa palavra, ela insiste. Será que não vê? E quer saber da minha semana, não vim bater papo, não somos amigas, não sei, acho que não está dando, mas já ajudou nesse tempo, três anos...

andei pensando na morte, no universo, quero morrer magra pra não pesar, acabar logo. Você sempre fala disso, não dar trabalho no fim, mas, você sabe, não é assim, não dá pra controlar. Ouvi aquele professor de física falando da formação do universo e da vida. E o que vem antes? Depois tinha um falando que nada tem explicação mesmo, acho que citava Nietzsche, e precisa ser filósofo pra sacar isso? Que tudo se repete infinitas vezes. Já ouvi isso também, tudo se repete, coisa de carma? Só queria que tudo parasse ou nem começasse. Mas, até que gosto da vida.... É, já que estamos aqui...

Julho foi bom... A gente precisa viajar de novo, as trilhas, a cachoeira. Adorei aquela noite, a gente rindo sem controle, aquela fumaça doida. É mesmo, você leu as cartas e disse um monte de coisa certa, não sei como faz isso! Sei lá, começo brincando, mas baixa uma coisa séria e até acredito mesmo, será que fui bruxa? Ih, vamos voltar pro papo existencial, melhor não...

... até as 19h de amanhã. Se você quiser, venha, vejo de novo com você. É o do Oscar? Sim, melhor ator, o cara tá incrível mesmo. Sempre dão Oscar pra quem faz papel de doente, já reparou? É. Aguentei ver, pensava na minha mãe, foi mais tenso o dela e ela me ensinou tanto nesse processo... Eu sei, eu vi, ela era maravilhosa. Pensei na gente, nosso grupinho, acho que ficaremos velhas avulsas, acho que ficaremos juntas. Sim, a gente contrata uma enfermeira pra cuidar dos nossos remédios. Ou um enfermeiro. Com uniforme de policial! Pra mim um de padre, ou uma, de madre superiora! Tá bom, sem promessas, mas acho que a gente vai se ajudar.

Esse barulho foi aí? Que barulho? Não, foi aqui, a bateria do fixo não aguenta mais de uma hora, não uso mais isto pra nada, hoje resolvi ver se você ainda usava o seu, olha só, acabando a bateria. Só atendi porque era seu número, só ligam pra vender plano de saúde, mensagens gravadas, consignados... Vou desligar, te ligo em seguida do celular. Tá, liga, quero te contar um negócio. Até já.

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