Releu pela terceira vez a carta. Prezado J.L. Estava muito formal no início, mas depois ficava mais simples. Uma folha, frente e verso. Toda sua confissão de amor estava ali, ato corajoso, adiado por anos...
Ela o amou aos 15 anos. E por todos os outros 20 que vieram depois. Ele, na época, teria uns 30. Era um dos funcionários premiados na festa da empresa onde ela era aprendiz. Gerente de vendas da filial de Belo Horizonte. Vinha a São Paulo quase toda semana, como ela saberia depois. Nunca, antes, tinha percebido. Mas nunca, depois, perderia uma passagem dele por ali.
Na carta, finalmente, contava tudo, despejava com precisão as amarguras de duas décadas de um coração que só batia por ele, J.L.
Naquela festa, ele a tirou para dançar. Depois conversaram muito, ele contou sua trajetória na empresa, desde o contrato como estagiário, mais ou menos como ela, até o sucesso da promoção. Ele falava sorrindo, pareciam amigos antigos.
Falou sobre isso na carta, como ele foi maravilhoso, como ela se encantou. Mas, na época, não teve coragem de dizer a ele. Apenas esperava ansiosa pelas reuniões de gerência, às sextas-feiras. E dava um jeito de passar por perto, para se encontrarem num corredor, “por acaso”, e conversarem um pouco, para ver as covinhas no rosto dele acionadas por um sorriso.
Quando terminou o ano, acabou o contrato de treinamento e ela foi dispensada, reduzindo a quase zero a chance de vê-lo. Ele estava de férias, não se viram, não pode se despedir. Ficou apenas com o buraco no peito. Ela, tão menina ainda, vivia o desespero dos que amam sem serem amados.
É claro que ela já tinha conseguido o telefone dele, afinal ele era um funcionário, mas a relação deles (uma amizade?) nunca tinha avançado para uma troca de contatos. Ligar seria invasivo. E iria dizer o quê? Mas ligou, ligou várias vezes, apenas para ouvir a voz linda desse homem que a fazia flutuar. Então desligava, alegando um engano. Um dia disse que era ela. Ele, surpreso, foi gentil, mas breve. Muito breve, cortando qualquer possibilidade de outra tentativa.
Passou anos escondendo, de todos, esse amor: bobagem, coisa de adolescente. Passaria. Não passou. Então ela conheceu o Vinícius. Depois o Leandro. Acabou ficando noiva do Paulo, com quem fazia planos de casar em maio. Mas antes precisava resolver essa pendência do passado. Apenas dizer a esse príncipe que ele foi seu amor de tantos anos. Que precisava desatar esse nó para seguir a vida. Por isso a carta.
Fazia inúmeros anos que não se viam. Nunca soube muito sobre ele, apenas o pouco que conversavam, o pouco que outras pessoas da empresa tinham contado e o pouco que a internet revelara. Aparentemente não era casado. Por que um homem de 50 anos não era casado? Ou será que era?
A carta estava em suas mãos, envelope preenchido com o endereço do novo emprego, como ela tinha encontrado no site de buscas. Não conseguiu o endereço dele, nem o telefone. Mas mandaria a carta, que seria registrada, para ter certeza de que chegaria até ele. Como ele reagiria? E se a carta caísse nas mãos de outra pessoa? E se isso gerasse um problema para ele? Deveria mesmo enviá-la?
Resolveu, antes, ouvir os conselhos de uma vidente do bairro. Já tinha se consultado uma vez, ela era boa.
“Quer perguntar ou quer que eu abra o baralho?”
“Abra!”
“Vejo você apaixonada, prestes a se lançar numa aventura. Uma loucura?” , perguntou olhando a outra por cima dos óculos. Sem respostas, continuou: “Sim, você deve fazer isso, deve enviar o objeto. O resultado será um sucesso.”
Como assim? Que tipo de sucesso? Ela não entendia.
“Vejo ele pensando em você. O objeto é o início de algo que vai começar entre vocês. Ele vai querer você, sim, esta carta mostra vocês juntos!”
“Mas eu estou noiva! Como fica meu namorado?”
“Vamos ver... a relação será cortada, veja esta carta, com certeza, fim de relação. Você ficará com o outro.”
Pagou e saiu desnorteada de lá. “Ficará com o outro!”, “com o outro”, “o outro”. “tro”... Tremia.
Havia ali uma nova perspectiva... e se fosse verdade, se ele também sentisse amor por ela? E se a quisesse agora, que já era adulta? Agora que já era noiva? Agora que ela nem queria realmente nada com ele a não ser expor 20 anos de coração partido e finalmente se livrar disso? Ela não o queria. Ou queria? Quem seria esse homem hoje? Teria dentes? Seria justo provocá-lo e, depois, fugir? Sabia que aquela era uma paixão sem lógica, por alguém que ela mal conhecera infinitos tempos atrás.
Além do mais, o Paulo era maravilhoso. Nunca tinha sentido por ele aquela paixão que sentira por J.L. Nunca sentira a mandíbula travar quando ele parava diante dela, como acontecia diante de J.L. Mas Paulo era real e a amava do jeito que era.
No caminho para casa, decidiu que não era o momento para enviar a carta. A partida não estava concluída, mas ela precisava de tempo, mais alguns anos, para avaliar o próximo lance desse xadrez.
Paulo, nos dias seguintes, estaria mais lindo do que nunca.

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